sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um dia

Por Mateus O.
Devo confessar que há algum tempo tive um dia péssimo. Um daqueles dias típicos de filmes de humor americano em que tudo da errado para o personagem principal. Sai com a intenção de resolver várias coisas no mesmo dia, se possível, ainda pela manhã. Uma a uma foram dando errado, a começar mesmo pela primeira da lista, a mais importante de todas por sinal, decisiva para outras tantas da minha própria vida futura. Enfim, uma a uma, todas as outras também, de uma forma ou outra, deram errado. Umas das últimas coisas a se fazer, essas coisinhas do cotidiano, era marcar retorno no médico. Hospital público, rede pública de saúde, um Cais mais precisamente. “Não há vagas por agora", me disseram. “Só depois do dia 15”. Então, pensei naquele momento: tudo bem que é um hospital público, tendo em vista todas as dificuldades desta área, a data não estava longe. E que mesmo na rede particular isto é possível acontecer. Mas eu queria retorno naquele dia, não queria ter que voltar lá para tentar fazer isso novamente, eu queria minha data de consulta, eu queria naquela hora e pronto. Que ao menos isso desse certo no meu dia: marcar um retorno com o médico. Eu merecia. Eu merecia, cara. Eu estava em pavoroso de calor, de angústia, de raiva do mundo e de mim. Ao menos aquilo teria que dar certo. Mas não. Não deu. Quase virando para ir embora, sem forças, de ombros caídos, um saxofonista começa a tocar no meio do salão do Cais. Uma música qualquer, acho que conhecida, pude reconhecer algumas notas. Assustei-me. Espantei-me. Mas aqui? Um saxofonista? Como assim? Olhei para os lados e mais ninguém, apenas ele. Será parte de algum projeto de cidadania do governo? Humanização dos pacientes? Alguma intervenção cultural? Ele tocava por alguns trocados? Não importava. Ele apenas estava lá tocando e alguns de nós, pacientes e funcionários, prestava atenção. A música não era triste, mas fiquei triste. Eu que nunca tive a atenção chamada pela sonoridade de um saxofone, naquele momento eu era melodia pura do instrumento. Eu era um som triste de mim mesmo e de minhas derrotas. Quis começar a chorar. Comecei a chorar. Comecei a chorar, mas não terminei. O que é isso? Estaria eu ficando menino fraco de pura inocência e delicadeza? Estaria eu me tornando um frágil? Um fraco? Sucumbindo ao mundo? Às merdas do mundo? Não. Eu disse não para mim. Coloquei os óculos escuros de acetato e marchei a caminhar para meu ponto de ônibus. Eu precisava ir embora imediatamente. Andar, correr, fugir. Eu nasci pra guerra e não pra paz. Se a vida vai continuar a me foder, que ao menos eu continue me movimentando. Afinal de contas, eu continuo sendo o protagonista. Eu não vivo para a vida. Eu vivo é de vida. (Mateus O., jornalista, mestre em Arte e Cultura Visual e amante ambicioso -mateusoliveiraalex@gmail.com)

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