sexta-feira, 6 de junho de 2014

Assistência Social ou "onguização" do estatal?

Por Geyzon Rodrigues
É sabido que no atual modo de produção capitalista, que se desenvolve a cada dia para o aprofundamento da barbárie já presente, o lazer ou o ócio já não significa mais um tempo de não trabalho, ou um tempo ocioso que não implique na atividade laboral, assim como era em épocas um tanto remota da história da humanidade. Mas ao contrário, nesta sociedade civil burguesa, tudo e todos se tornam meras mercadorias do capital, logicamente, o lazer a e cultura também se tornaram. Este argumento fático e histórico se aplica aos trabalhadores e às trabalhadoras, porque de alguma forma tem um saldo do seu salário que lhe dão o direito de comprar o lazer ou a cultura da forma que bem “desejarem”. Agora imaginemos a intensidade complexa dessas mercadorias (cultura e lazer) quando aplicadas àqueles que Marx chamou de lumpem, ou seja, o setor do operariado inapto para o trabalho regular - seja pelas condições objetivas ou subjetivas - logicamente, a expressão da “questão social” agrava e corrói mais inda o tecido social para as pessoas em situação de rua, assim como chamamos atualmente, que hora se encontram nas ruas, hora se encontram em casas de passagens administradas pelo poder público burguês, pela filantropia organizada e ou por pequenos burgueses. Por que do déficit de projetos de incentivo para promoção do lazer e cultura para os abrigados? A realidade da Casa de Acolhida e Cidadã de Goiânia, como um espaço de responsabilidade Público e também Privado e órgão da Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMAS), regido pela Política de Assistência Social brasileira, não é uma realidade isolada da realidade do Brasil em termos de assistência e carência de investimentos. O estado de Goiás também tem tamanha parcela de irresponsabilidade e culpa. Sabe-se que a Secretaria Estadual de Assistência foi substituída descaradamente pela Organização da Voluntárias de Goiás, ou seja, um processo de "onguização" dos órgãos públicos, em benefício da política de eleitoral do governador Marconi Perillo (PSDB) e sua companheira Valéria Perillo, mais conhecida como a "primeira dona". Todas as problemáticas que se materializam dentro da CAC [alta complexidade da SEMAS] hoje estão diretamente relacionadas à ausência do Estado, e se o Estado está ausente de quem, em larga medida, dependerá este órgão que é público? Com certeza, funcionará conforme as empresas e igrejas forem fazendo as dações necessárias para manutenção básica da CAC, ademais não posso deixar de citar o brutal déficit financeiro de que enfrenta o Governo Municipal de Goiânia, cujas consequências já são tão explícitas que tem mobilizado todo o senso comum goianiense, ou os “simplórios” como chamava Gramsci. Se há complicações em manter o básico na CAC hoje, pensemos como está o grau de comprometimento com os ‘meios de trabalhos’ que são necessários para garantir a aplicabilidade das atribuições privativas da equipe de assistentes sociais e de toda a equipe técnica? A resposta para essa crítica contribui para solucionar várias questões no atendimento dos usuários e também para entender o porquê do déficit de trabalhos e projetos de intervenção para melhorar o atendimento dentro da CAC, tornando o convívio dos abrigados (homens, mulheres, crianças, idosos e homossexuais) mais humanizado, com maiores possibilidades de reabilitação e emancipação através da inserção em algum espaço de lazer e cultura que venha despertar um olhar mais esperançoso com a relação ao convívio social como um ser socialmente integrado e construtor de sua própria história. Embora a estrutura física esteja indo de mal a pior com falta de materiais básicos, mobilhas para trabalho e a ‘descomputadorização’ em pleno século 21, o usuário é quem sempre sai perdendo nesse processo. Independente das condições objetivas de trabalho da equipe técnica nota-se na atuação de muitas profissionais uma grande negligência na ação interventiva e propositiva que seja capaz de romper com o imediatismo, com a prática pela prática. A explicação mais pertinente para explorar o fenômeno do déficit de projetos pode ser pelo viés da apropriação do marco teórico que norteiam a prática profissional dessas profissionais, falo especificamente das assistentes sociais. Muitos atendimentos e abordagens são explicitamente ainda ancorados numa espécie de fenomenologia do altruísmo e dos bons conselhos. A ausência de diálogo entre a equipe técnica capaz de pensar as questões estruturais da CAC, questões que tem implicações diretamente na atuação desses profissionais, são escassas. Ao contrário, o individualismo e exclusivismo profissional comparecem fortemente. Mas com pouca frequência. Portanto, posso concluir parcialmente, que os óbices que atravessam e impossibilitam as formulações e execuções de projetos de intervenção na CAC são de natureza teórico-metodológica e técnico-operativa. (Geyzon Rodrigues, estudante de Serviço Social da PUC Goiás e estagiário ne Casa de Acolhida e Cidadã)

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