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sexta-feira, 6 de junho de 2014
Perdemos
Por Rodrigo Paes Lima
Estamos a poucos dias da Copa do Mundo. Daqui uns dias as seleções começam a desembarcar em nosso país. Turistas, jornalistas, artistas, celebridades e chefes de Estados, todos chegando para acompanhar de perto a “Copa das Copas”. A disputa dentro de campo será acirrada, sendo imprevisível o resultado final. Mas uma certeza podemos ter: independente do resultado dos gramados, o Brasil, como nação, já perdeu essa copa.
Os grandes países do Mundo rezam por uma oportunidade de sediar um grande evento como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Eles sabem da grandiosidade do evento, da visibilidade que ele dá e das grandes possibilidades econômicas, comerciais e turísticas que os eventos envolvem. Cabe ao país-sede saber usar de inteligência e competência para que isso aconteça. Ao longo das décadas temos exemplos bons e ruins. O Brasil, pra variar, não soube aproveitar a oportunidade, e vamos acabar sendo incluídos no rol dos maus exemplos em sediar um grande evento. Perdemos uma oportunidade de ouro.
Ao anunciar que seríamos o país-sede em 2007, ou seja, 7 anos atrás, o Brasil viveu momentos de euforia. Finalmente, o “país do futuro” ia sair do papel. Várias obras de infra-estrutura iriam acontecer: aeroportos modernos, transporte público de qualidade, obras viárias nas cidades-sede, mobilidade urbana, evolução no setor de serviços, novos hotéis, qualificação profissional para centenas de brasileiros e, é claro, os novos estádios de futebol, ou como o Mundo passou a chamá-las, arenas multiuso. Mas o que de fato vimos foi o contrário. Poucas obras saíram do papel. Uma obra aqui, outra ali, mas o grosso mesmo ficou só na promessa. Os estádios, mesmo que super-atrasados e com problemas estruturais ficaram prontos. Esses eram óbvios que ficariam, pois sem eles não teria Copa. E mesmo assim, desses estádios, muitos serão “elefantes brancos”.
Vamos passar vergonha nessa Copa justamente por causa desse tanto de obra prometida, não cumprida e não acabada. Os turistas não terão aqui no Brasil o padrão “americano e europeu” que estão acostumados. Vão sofrer no trânsito, vão sofrer nos aeroportos, nos restaurantes, nos hotéis, não terão conexão decente de internet e telefonia, uma minoria dos trabalhadores de serviços sabem falar outro idioma e os preços estarão abusivos.
E isso já se reflete Mundo afora. A nossa imagem está completamente negativa. Muitos duvidam da nossa capacidade de realizar um evento desse porte. O Mundo nos vê, mais uma vez, como um país bagunçado, desorganizado, sem comprometimento, que faz tudo na base do improviso, cheio de bandidos e a corrupção rolando solta. Temos recebidos críticas e bombardeios de vários países que estão temerosos com suas seleções durante a realização do evento. E os recentes protestos anti-Copa que estão se espalhando país afora, geram mais medo e deixam a impressão de vandalismo, causando mais essa preocupação aos turistas. Mas como é Brasil, sempre nos saímos com o famoso “jeitinho brasileiro”. Varremos a sujeira para debaixo do tapete, tampamos o sol com a peneira, fazemos um retoque aqui, uma maquiagem ali, um puxadinho acolá, e aos trancos e barrancos a coisa vai. E daí vem o Governo e tenta nos empurrar uma imagem que está tudo certo, tudo dentro do planejado e que o “legado da Copa” vai acontecer. A quem o Governo pensa que engana? Temos que acabar com essa “cultura da improvisação e do jeitinho” e aprender a planejar o país se um dia quisermos que outras nações nos respeitem.
O erro já começou com as escolhas das cidades-sede. A FIFA pediu no máximo 08 cidades. Aí já entra a politicagem. O Lula, então presidente, disse que seria a “Copa do povo brasileiro”, que levaria os jogos ao alcance de todos. Mas a realidade é que as sedes foram escolhidas para atender aos políticos, governadores e prefeitos. Todos querendo uma fatia do bolo. E como o “seu Lula” não gosta de ficar “feio na fita” com ninguém, bateu o pé em 12 sedes, sem levar em consideração um monte de fatores. Além de encarecer todo o evento, fazendo a logística ser extremamente complicada para as seleções e os turistas, foram escolhidas cidades que não tem tradição no futebol. Essas cidades ganharam estádios modernos (o tal “padrão fifa”), caríssimos e que não servirão pra nada. Nem time na série A essas cidades tem. O que serão feitos desses estádios pós-Copa? O governo e dirigentes dizem que farão shows, atrações internacionais entre outros eventos. Será preciso de pelo menos um show da Madonna e da Beyonce por mês para pagar e dar vida a esses estádios. Já ouviram falar de “elefante branco”? Pois no Brasil teremos alguns.
A verdade é que perdemos a Copa antes do pontapé inicial. Jogamos no lixo uma oportunidade de ouro. A Copa do Mundo é uma vitrine mundial. Todo o planeta se interessa por esse evento. Por si só, o Mundial já atrai milhares de turistas e milhões em dinheiro. Países sérios usam eventos desse porte para crescer, para evoluir. Se fossemos espertos e honestos, teríamos usado a Copa para melhorar a vida dos brasileiros, melhorar nossa infra-estrutura, nossos serviços e nossa educação. Agora o que nos resta é esperar por um evento sem grandes sobressaltos, que transcorra tudo dentro das normalidades, segura e correta. Seria um alívio se as coisas não saírem muito dos trilhos. Porém, depois de encerrada a competição, quando a euforia passar e os brasileiros voltarem ao seu cotidiano do dia-a-dia, os avanços que foram prometidos para melhorar a vida do povo, isso será apenas ilusão.
O povo brasileiro, nos últimos meses, está deixando bem claro a sua revolta e indignação com os rumos que o Governo tomou na organização da Copa. Aquele clima gostoso de Copa parece que não vai invadir nossas ruas. Portanto, o que vai acontecer com a seleção Brasileira dentro de campo é outra estória. O Brasil, com seus mais de 200 milhões de pessoas, esse já perdeu a Copa do Mundo de 2014.
(Rodrigo Paes Lima, administrador de empresas, pós-graduado pela FGV e criador da página “Coluna do Urubu” no Facebook)
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