segunda-feira, 9 de junho de 2014

Você é mulher, não entende nada de futebol!

Por Mara Narciso
Verdade, a mulher não entende daquilo que não lhe interessa, mas caso queira aprender, qualquer assunto é possível de ser retido na memória, mediante observação ou estudo. Quando mal saí das fraldas, claro, não fui jogar futebol, mas passei a ouvir a minha mãe Milena contar como foi dramático o dia 16 de julho de 1950, ocasião em que ela tinha 16 anos. Foi a final da IV Copa do Mundo de Futebol, acontecida no Brasil. Ela havia almoçado na casa do seu tio Antônio Carlos de Souza Lima. Resolveu assistir lá o jogo entre Brasil e Uruguai. Seria ouvido pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Participariam desta Copa Itália, Suécia, Suíça, Espanha, Iugoslávia, Inglaterra, Escócia, Brasil, Uruguai, Chile, Paraguai, Bolívia, Estados Unidos, México, Turquia e Índia. Seria aqui porque a Europa vinha sendo reconstruída após a 2ª Guerra Mundial, e não houve nenhum outro país candidato. Getúlio Vargas vinha dando incentivo ao futebol e o Maracanã, Estádio Jornalista Mário Filho, tinha ficado pronto no ano anterior. Três delegações desistiram. A Seleção Brasileira chegou a jogar desfigurada no Pacaembu, e no final ficaram quatro seleções: Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha. Como o Brasil goleou dois adversários, ainda que a Seleção do Uruguai detivesse o título de melhor do mundo em 1938, um misto de euforia e presunção contra os vizinhos dava uma quase certeza de vitória do Brasil. O primeiro da lista era nosso país e isso ampliou ainda mais a confiança, sendo que o empate dava o título ao Brasil. Apenas quem compreende os espaços do campo com suas divisões, a escalação dos dois times para saber para que lado vai se dirigindo a bola, os tipos de jogadas, além, obviamente das regras, consegue se apaixonar e vibrar com um jogo, como foi o caso da minha mãe, ouvindo a partida pelo rádio. Pelo estrago feito, pois ela voltou para casa se arrastando, conforme me contou diversas vezes, como se os braços estivessem pesados, e longos, encostados no chão, com os olhos inchados de tanto chorar, posso deduzir, que, embora o clima de otimismo tenha feito a cabeça de todos, ela gostava mesmo de futebol. Para entender melhor o sentimento dela, decidi ouvir a gravação completa do jogo fatídico, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na voz do narrador Antônio Cordeiro. O som engasgado e deteriorado pelos 64 anos, desde a audição do Hino Nacional, considerado um ato de civismo, até a ovação da torcida inesquecível, de mais de 199 mil pessoas no estádio, foi melhorando aos poucos, e eu também fui me envolvendo com os fatos. Imaginar a cena do jogo pelo rádio exige mais do que atenção, é preciso treino para se sentir o clima. Após o sorteio do campo, enfim, começa o jogo. A tensão da partida é dada pelo tom do locutor, com sua linguagem pouco compreensível para os não iniciados. Ele torce pelo Brasil, diante de uma falta contra o Uruguai, mas de forma discreta. E vou ouvindo relíquias da linguagem futebolística. Lembro algumas expressões e palavras tais como comandante do time, legado, dribles na sequência, tiro livre, área penal, pegar forte, pelota rebatida, zagueiro direito, recuperada pelo alto, vai levando a pelota. Outras: perigo para a meta do Brasil, joga a pelota para fora, divisória do gramado, pronto para executar a penalidade, ponteiro, bico da área, espetacular ação do arqueiro, cabeceada infalível, bola na boca do gol, vantagem territorial, caído no terreno, cancha, tiro de gol. Os verbos mais ouvidos foram: atrasou, devolveu, perdeu, recuperou, bateu, pegou forte, contra-atacou e defendeu. A publicidade é jogada a todo instante: “De sensação em sensação, o prazer vai aumentando com Brahma Chopp”, “Com Brahma Chopp, não precisa traduzir: É o carinho em garrafa”, “Sabor de mais pureza, com Brahma Chopp em sua mesa”, “Ofereça aos seus amigos o sabor de Brahma Chopp, a primeira palavra em cerveja”, “Não aceite uma cerveja qualquer, exija Brahma Chopp”, “Em garrafa ou em barril, Brahma Chopp, a cerveja preferida do Brasil”. Puros e ingênuos, jogados até mesmo na hora do segundo gol do Uruguai. Apesar da empolgação da torcida, o Brasil faz muitas faltas e não marca gol na primeira etapa. Este acontece no primeiro minuto do segundo tempo, marcado por Friaça, quando a torcida naturalmente se empolga e grita mais. Após o gol do Brasil o narrador aumenta sua alegria. Noutro momento, todo o quadro do Brasil estava na defesa. Dezenove minutos depois vem o gol do Uruguai, de Schiaffino. O locutor diz que “a defesa uruguaia é pesadíssima, chega violentamente e que o juiz assinalou um impedimento”. Noutra hora, houve momento de pânico para a retaguarda brasileira. O ataque uruguaio cabeceia pela linha de fundo, levando a um tiro de gol para a equipe do Brasil, ficando a bola com o arqueiro brasileiro. Num certo momento o guardião Máspoli quase faz um gol contra, pois ia chutar contra sua própria rede. Mas se machuca, sendo interrompida a peleja. Depois um jogador falhou e a pelota sobrou. Após uma cobrança pela direita, pelo nosso poder ofensivo, ocorre um escanteio em favor do Brasil. Aos 33 minutos do segundo tempo acontece o segundo gol do Uruguai, de Ghiggia. O locutor não culpa o goleiro. Há um grito seco e repetido de gol, sem uma anterior narrativa de avanço do adversário pelo campo do Brasil. Como falta pouco tempo para o jogo acabar, a Seleção Uruguaia prende a bola e cobra atrasando. A torcida, contrariando a versão oficial do maior silêncio já ouvido no futebol, o Maracanaço, vibra e torce até o fim. Também o locutor mostra-se profissional e demonstra alguma animação. Ainda há um corner favorável ao Brasil no último instante, mas é tarde demais. Terminada a partida, o selecionado brasileiro some do campo, saindo chorando. O comentarista Jorge Cury elogia o jogo dos uruguaios, afirmando que a peleja foi brilhante, disputada com entusiasmo, mas os brasileiros não conseguiram fazer contra os adversários o que se esperava. Antônio Cordeiro afirma que o espetáculo foi magnífico. Os destaques desta copa foram Roque Máspoli, Obdúlio Varela, Alcides Ghiggia, e Juan Schiaffino pelo Uruguai, Ademir de Menezes, Zizinho, Jair da Rosa Pinto, e José Carlos Bauer, do Brasil. O francês Jules Rimet, com a taça que leva seu nome debaixo do braço, e certo que a entregaria ao Brasil, fica perdido, se irrita com a invasão de fotógrafos, mas segue o cerimonial. O goleiro Moacir Barbosa, mesmo sendo vice-campeão do mundo, e eleito pela FIFA como o melhor goleiro do torneio, amargou críticas que o traumatizaram pela vida afora. Afirmou num vídeo: “nunca houve silêncio maior do que aquele que eu ouvi. Havia um país, e surgiu outro depois da derrota”. Sim, dá para entender o motivo do choro da minha mãe, aos 16 anos, uma menina que começava a entender de dor e de futebol. (Mara Narciso, médica e jornalista)

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