sexta-feira, 6 de junho de 2014

A poesia surrealista de Geraldo Carneiro - III

Por Licínio Barbosa
No livro ‘’I’ll like bilac’, o poema ‘Inveja de O.Bilac: “Quisera ser poeta parnasiano / desses que domam deusas e quimeras / musas defuntas, Vênus, Anadyômenes / & outras fantasmagorias do gênero / mas os deuses, em conspícua conspirata,/ fizeram despejar-me do Parnaso / e eis-me exilado agora ao rés-do-mundo / despido dos parangolés do sublime / à mercê de medusas e medeias / anti-herói de epopéia em prosa/ sem cravo nem rosa-dos-ventos”. No poema “Bilacmaquia”, o irreverente Geraldinho Carneiro assim se coloca: ”Livre espaço a ave aurora / as asas cantando climas céus / nuvens agora, o sol, o voo, / a vida, o olhar (re) volta / tempo alegria de novo”. Mais adiante, a poesia “O. Bilac através do espelho (1)” : “To be or not to Bilac / to be like Bilac” . Em “Variações sobre O.Bilac”: “Viva sempre a paixão que me consome / sempre paixão a que me consome viva / paixão a que me consome sempre viva / sempre viva a paixão que me consome / que me consome sempre a paixão viva / que sempre a paixão viva me consome.” Em “Variações sobre O. Bilac” (2), ei-lo, sempre irreverente: “Quem ama inventa as penas em que vive / quem ama inventa as penas? / ou apenas se inventa como amador? / ou se inventa como ave voando ao sabor / das revoltas do vento ? / ou inventa a rosa-dos-ventos ? / quem ama inventa a rosa?/ quem ama inventa a rosa?/ quem ama inventa ?/ ou talvez, ao contrário de O. Bilac, / quem ama as penas em que vive inventa?” Em “Pandemônio” (1989 – 1993), o poema “Desinvenção de Orfeu”. ”Nem tudo é épico e oitava-rima” / ‘disse o poeta Jorge de Lima / a vida é uma aventura extravagante / sem dragões ou mulheres enluaradas / só raro traduzíveis à flor da fala. / Além do mais me falta metafísica/ pra conferir ao sol solenidade / e às galas da galáxia certa pompa; / por isso ao rés-do-mundo me confino / como dantes cada vez mais moderno / sem acesso aos círculos do inferno”. Mais adiante, o poema “Nevermore”, que lembra Edgard Alan Poe: “Fizemos piqueniques em Pasárgada / tramamos romances rocambolescos / nas praias mais improváveis. / Cifras, grifos, dragões d’além-mar/ cuspiam fogo em nossa Eros-dicção/ você era mais luz: eu era mais treva / fomos quase felizes para sempre / antes que você escolhesse o dia,/a hora, e o ‘grand-finale’ do espetáculo/ (ou não escolhesse a morte é sempre / um ‘pas-de-deux’ com o deus do acaso)”. No livro “Pictografias do país dos papagaios, “O Elogio das Índias Ocidentais”: “Ó cunhãs, ó indiazinhas em flor / quisera ser o vosso Pero Vaz / cronista das vergonhas saradinhas / naufragar nestas Índias do Ocidente / cheio de fantasias orientais/ ser vosso fauno em ‘après-midi’ / cevado (ai de mim)a aipim e cauim / até me converter num querubim / e, numa patuscada bem pagã, / (Cubanacan ao fundo no atabaque), oferecer o corpo em holocausto / pra sentir, com a graça de Tupã, / os vossos dentes me mascando a carne / nhaque nhaque nhaque”. Vem, após, o livro “Piquenique em Xanadu” (1981-1988), onde se destaca o poema “Pacto Sinisstro”. Ei-lo. “Quem sabe a vida é uma novela série ‘noir’ / cheia de som e fúria etc. / ou filme ‘Bsem verossimilhança/ e deus é o rival de Humphrey Bogart / que se fartou de luz na Martinica / & agora à luz da Lua / se empenha por capricho a maquinar / ‘what’s the next step / of the story’ / ou ‘what’s the next stop / of the starry / way to nowhere?” E assim prossegue, Geraldo (Geraldinho) Carneiro, o poeta surrealista que emociona e faz pensar, brincando com as palavras e fazendo chalaças com as musas. (Licínio Barbosa, advogado Criminalista, professor Emérito da UFG, professor Titular da PUC-Goiás, membro Titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro Efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 - E-mail liciniobarbosa@uol.com.br)

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