Este é o blog da editoria de opinião do jornal Diário da Manhã. Aqui, a sua opinião acerca dos assuntos e fatos da atualidade serão publicados. Seja bem-vindo!
terça-feira, 10 de junho de 2014
Como afugentar o leão
Por Iron Junqueira
Leão é um amigo que deixou Anápolis e por um lastro de trinta anos ficou chafurdado pelas bandas acaloradas de Siqueira Campos e também de Gurupi...
Um dia reaparece a Anápolis com u´a mão atrás outra na frente, porém, aposentado, filhos formados e casados. Reencontrou a primeira namorada que estava também disponível e com as dela juntou suas trouxas.
Em conversa comigo foi perguntando pelos velhos amigos e conhecidos. Sobre quem eu me lembrava, ia lhe repassando as novidades ou as “antiguidades” do cotidiano.
Nessa troca de lista eu lhe disse como se encontrava cada qual, e ele me punha a par de cada anapolino que se debandara para longes plagas.
— E como vai o Altair (troquei o nome de propósito) Carvalho, como está o cara a quem eu vendia tudo o de que precisava na sua fazenda?
— Está ótimo, poderoso, rico, ainda com aquela fazenda que prospera — e pelo tempo não espera...
— O Altair Carvalho? Inquiriu o Leão.
— Sim, ele mesmo, então, achou que eu não o conheço? Ele está bem, sim senhor! Já no terceiro ou quarto casamento.
— Mas não é possível! Quando eu estava em Gurupi me falaram ou li que ele tinha falecido!
— Não, Leão, só se foi um homônimo! Porque o Altair, nossa geração, pintor de rodapé, assim como nós, está aí na cidade, firme e forte.
— Poxa! Lamenta o Leão — pensei que ele estivesse para onde nos leva o arco do berimbau...
— Não. Está na cidade. Vivo leve e solto! Semana passada mesmo ele esteve na entidade, levando uns tambores de leite para os meus garotos!
Encabulado, o amigo insistiu que eu estivesse enganado. Confirmei melhores detalhes com ele e chegamos à conclusão de que falávamos da mesma pessoa. Não era o irmão da Anita, uma moça linda que nos ajudava no Lar HC?
— Sim. Confirmou-o.
— Não foi presidente do Sindicato Rural? — foi minha última pergunta.
— Esse mesmo! Retrucou o Leão — pois é. Eu sei que ele não está mais entre nós há bom tempo.
— Está bem! Não insisti. Vamos que o homem passou pra banda azul e eu não soubesse?
— Não está! Insistiu o turrão.
— Então, esqueçamos o amigo antes que a orelha dele comece a esquentar...
— Quer apostar? Persistiu o parceiro.
— Não, Leão! Eu não aposto. Virei “crente”! Aleluia!
— Ah! — criticou o interlocutor e, ainda zombou — mais fácil o Felipão lhe convocar para a Seleção da Copa do que você virar crente... — e saiu.
E meu amigo, depois que veio do norte, construiu uma casa pequena no meio do mato, num local pra lá de Anápolis e antes de Corumbá, a que dera o nome de “Nem”. Quer dizer: Nem Anápolis, nem Corumbá.
Fui lá visita-lo certa feita e procurando ver por onde ou como saber dele, escutei uma voz:
— Eu só reconheço as pessoas de perto! Aquela voz fanhosa, soprada, saía não sei de onde. Procurei pelo portão, pela cerca pelos galhos de árvore e não achei merda nenhuma de aparelho comunicante.
— Diga seu nome, por favor! Era a voz dele.
— Dizer aonde, cara? Não estou vendo “pareio” nenhum!
O portão estava fechado e a casinha dele lá longe.
— Aproxime-se dessa planta de marmelo e diga seu nome que eu ouço.
Vi ao lado da cerca um arbusto que parecia o de fazer marmelada.
— É o Iron, Leão! Respondi, meio sem graça, achando-me tolo, desconfiado, espiando para os lados a ver se ninguém me via falando sozinho. Mas o que tinha por aquelas bandas era sol que ardia, silêncio e mosquito. Passava a mão pela planta de marmelo quando vi um pedaço de taboca. Ao tocá-lo, coincidentemente, uma voz emergiu do tubo de madeira:
— Pode entrar.
***
Um dia encontrei o Altair Carvalho no Lar HC, onde fora levar leite e conversei com ele sobre o Leão:
— Tenho saudades dele, — acrescentou o Altair — você pode me levar lá?
— Claro, respondi — só se for agora!
Entramos na caminhonete do amigo e rumamos para o Nem, onde mora o Leão. Lá chegando, pedi ao Altair que buzinasse. Desta vez não foi preciso eu me apresentar. O carro vistoso do Altair passou mais confiança ao Leão do que o meu velho Tucson; e ele foi atender à porta do rancho sem saber quem estava no auto. O Altair descia do carro ao encontro do Leão e eu do outro, sem que ele pudesse me reconhecer, pois eu não próximo.
Mas quando deu para o Leão reconhecer que era o Altair, desceu a estrada vicinal num carreirão sem breque e disparadamente, enquanto gritava:
— Meu Deus! É o Altair! Socorro! O Fantasma! O Fantasma!
Quanto mais corria e gritava, mais sua imagem sumia ladeira abaixo.
— Rapá! Falei ao Altair — eu não sabia do seu poder de afugentar Leão.
E ele, brincando:
— Com o passar do tempo a gente amansa qualquer leão. Eu lhe dou a “Receita”...
Como o amigo sumira no mato, não tinha como acha-lo num local ermo e nem estrada, voltamos.
Está fazendo um ano, dois meses, três dias e (olhe as horas e minutos no seu relógio) que nunca mais vimos o Leão.
(Iron Junqueira, escritor)
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário