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quarta-feira, 11 de junho de 2014
Doces e nostálgicas lembranças
Por Alba Dayrell
Ao entardecer, os pássaros procuram as árvores para se abrigar; na floresta, os animais selvagens se encaminham para as cavernas enquanto outros se dirigem às suas tocas. Nos rios, os animais aquáticos se acalmam, e os ribeirinhos se acomodam para descansar. Depois de passarem o dia escondidos, os bichos noturnos começam a sua ronda. Todos querem um lugar seguro para ficar.
Assim também é o homem. O ser humano precisa de se refazer, recuperar energia e se transformar. No seio da família, resguardado no seu canto, encontrará a força necessária para enfrentar os problemas da vida. Casa é refúgio, abrigo, segurança e paz. Revitalizado, estará apto a seguir a longa jornada a ser percorrida.
Sentada na varanda da minha casa, volto os olhos para o jardim. Observo as plantas, as árvores, os coqueiros, a cascata! Sinto o perfume de manacá e o aroma adocicado da magnólia. Ouço o canto dos pássaros, o som persistente emitido pelas cigarras e, ao fundo, a orquestra inocente dos grilos vibrando um tom abaixo.
Nesse momento, permito-me voltar ao passado. Vejo as crianças brincando alegremente. Naquela época, excitadas corriam pelo gramado, subiam as árvores, saltavam o muro, jogavam bola, procuravam os brinquedos, pulavam corda... Tudo isso faziam com impecável destreza. Logo queriam tomar água. Quanta sede! Também, depois de tanto exercício! Bem cedo se acalmavam, sentavam no chão para ler gibi e se deleitar com as histórias do pato Donald e do Tio Patinhas! Que pureza!
O tempo foi passando e de repente a adolescência chegou. As festinhas começaram, a casa se encheu de amigos, e tudo era motivo para comemoração. A princípio, a música era estridente. Gostavam do rock pesado, formaram um conjunto, eram até solicitados para tocar em diversas apresentações.
Com o tempo, o gosto musical passou por transformações, começaram a apreciar a bossa nova, a música popular brasileira, a sertaneja de raiz e os sucessos ingleses, americanos, franceses e italianos. Ah! E a lambada! Como gostavam de dançar! Ensaiavam os passos mais extravagantes ao som do ritmo matreiro que os impelia a deslizar com graça e alegria.
Atentos e curiosos, não demoraram a descobrir a biblioteca da casa; mergulharam prazerosamente no mundo da literatura. Não se contentavam somente com a leitura. Queriam compartilhar a descoberta com os colegas. Liam e emprestavam os livros aos amigos para que eles participassem do mundo encantado da arte literária.
Entraram na universidade, encaminharam-se para a faculdade de Direito, seguindo a tradição da família. Nas reuniões da varanda, eram discutidos entre amigos os mais variados assuntos jurídicos. Alguns se empolgavam, falavam alto tentando expressar os seus conceitos. No final, surgia um violão, todos cantavam, pois nas suas veias corria sangue de artista. O Direito e a Música caminhavam lado a lado.
O tempo não para. Como caminha rápido! Os filhos casaram-se, hoje possuem seus núcleos, suas atividades, seus trabalhos, seus filhos. Agora, peripécias e risadas infantis pertencem aos netos. As mesmas brincadeiras se repetem. Que prazer doce e terno sentimos ao conviver com as crianças! Cada dia elas nos surpreendem com uma novidade. Não se pode delimitar o quanto aprendemos com elas, principalmente na área da informática. Como são carinhosas! O amor explode os corações!
Hoje os filhos são tão ocupados! Como trabalham! Pensando melhor, a nossa vida já foi bem-parecida com a deles! Agora estamos em outro estágio. Porém, eles nos visitam, almoçam conosco, nos convidam para sair e viajar com eles. Na verdade, são muito atenciosos. Todavia, a vida segue o seu curso.
Muitas vezes, sentada na varanda, observo o jardim da minha casa. Vejo tudo em seus lugares. Completamente em ordem, porém, vazio. As vozes se apagaram, o telefone não toca com a frequência de antigamente, as reuniões despreocupadas e improvisadas não acontecem mais... O mundo gira: é o ciclo da vida.
Vivi intensamente todos os períodos da minha vida, todavia prefiro o momento que estou desfrutando agora, com a graça de Deus. No entanto, nada me impede de sentir saudades das minhas origens, dos meus pais que tanto fizeram por mim e também daquela época em que os filhos eram verdadeiramente nossos, crianças inocentes e puras, com tempo disponível para conversar e ouvir histórias.
(Alba Dayrell, membro da Academia Feminina de Letras e Artes(AFLAG), da União Brasileira dos Escritores(UBE)e professora aposentada da UFG)
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