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terça-feira, 3 de junho de 2014
História da Geografia em Goiás LIX
Por Bento Fleury
Há um sentido poético e artístico para o Cerrado. Sentido que toca pouco a pouco os corações. Só nesses campos, agora tão diminutos, há um nascer de um ideário novo, de harmonia, de brisas suaves, de encantos pequenos, minúsculas flores molhadas pelo sereno, frutos das árvores grosseiras, tortas, empenadas pelo peso do destino. Árvores que já foram tão desprezadas e diminuídas, como se nada valessem na ambição desmedida do homem, do desbravador.
Mas se não valem no sentido econômico, tanto valem no sentido poético e artístico, servindo de inspiração para poetas saudosistas dos tempos idos, ou artistas tantos, das telas, dos pincéis, das esculturas e gravuras, fazendo renascer um sentimento de identidade com o Cerrado.
Cerrado, no campo, nos arbustos. Um renascer de coisas perdidas. Canta uma seriema, ao longe se destaca a flor singela da lobeira. O jatobazeiro com seu porte, tanto diz; os angicos com suas folhas pequenas murmuram ensinamentos imperecíveis na dureza do chão. Sucupiras bailarinas suspiram ao vento de agosto.
Há sombras e desenhos bonitos pelo chão de nossa sensibilidade!
Há uma paz derramada entre as formigas e os passarinhos no grande caminho da natureza que nos enseja momentos de luz.
São estas as divagações poéticas sobre o sublime significado do Cerrado na lírica dos sentimentos. Não se pode passar impassível diante de uma caraíba derramada em flor. É preciso renascer no coração do homem a relação de amor e respeito com o meio que o cerca. É preciso um coração de terra.
Assim se nos apresenta o Cerrado, que ocupava 25% do território nacional e se constitui em uma das mais ricas biodiversidades do planeta. Já teve 2,2 milhões de quilômetros quadrados e esteve presente em cerca de oito estados brasileiros, sendo considerado o berço das águas. E o que resta dele?
O Cerrado abriga nascentes das três principais Bacias Hidrográficas brasileiras: Prata, São Francisco e Amazônica, constituindo-se, também, como um dos biomas mais avançados do planeta. Nos últimos sessenta anos; em razão da dinâmica econômica, foi praticamente destruído por desmatamento desordenado, destruição de nascentes, poluição de águas, assoreamento do leito dos rios, aumento da produção de lixo e empobrecimento do solo.
O Cerrado foi o segundo maior ecossistema em extensão, ao abrigar a terça parte da biodiversidade nacional. Ele foi assolado por múltiplas agressões e impactos ambientais de toda ordem, resultantes de práticas/pragmáticas utilitaristas de indivíduos, grupos e empresas multinacionais e nacionais que detém o capital financeiro.
Este Bioma possui características botânicas, morfológicas e mecanismos fisiológicos próprios, diferentes dos demais biomas nacionais. Ele é visto hoje como emblema da resistência, como persistência, movida pela globalização e o capitalismo exacerbado. Ocorre a imposição de mosaicos gerados pela fragmentação e pela rede de articulações e aceleração do processo de remodelação das regiões. Há uma rapidez que foi maléfica ao processo de compreensão das transformações e uma superficialidade nas relações. O mundo de fato mudou.
Para a Geografia existe um existir e nesse, o uso pleno do meio. E como o Cerrado foi usado? E o que restou do mesmo?
O que restou está sendo revivido, agora, pelo trabalho magistral de um artista goiano, Vicente Augusto Fleury Umbelino de Souza, ou simplesmente Caraíba, como se intitula, guardando consigo a denominação telúrica de uma das mais belas árvores do Cerrado, que se derrama em buquês amarelos. Sua alma bebeu inspiração no trabalho magistral de Pierre Recroix (Monge) e o admirável Paulo Bertran. A paisagem de Goiás, da Chácara Sinhá Cupertino, fez o resto.
Com a inspirada denominação de “Espírito Cerratense” o referido artista expõe sua obra inicialmente no Memorial Paulo Bertran, ao lado da Pousada Sinhá na Cidade de Goiás, durante o FICA, permanecendo até 30 de julho no mesmo local, seguindo depois para Goiânia, onde ficará no hall de entrada da Assembléia Legislativa de Goiás e na Biblioteca da PUC-GO e, depois, seguirá para o Instituto Central de Línguas Modernas da Technische da Universidade de Berlim, lá passando por dois locais e, depois, seguindo para Leipzig e encerrando em Schwering, também na Alemanha.
Com seu trabalho, Caraíba leva um pouco do Cerrado e da terra goiana até outras distantes paragens, para que, lá, saibam de nossas árvores tortas, disformes, cascudas, que, pela argúcia do artista, foram transformadas a partir de madeira abandonada, refugos de desmatamentos, “paus à toa”, se transformaram obras de artes que correrão mundo a dizer de nós.
Muito inspirador; a nós, geógrafos, que amamos o Cerrado, conhecer e divulgar a obra de Caraíba. Sua inspiração, nascida de um telurismo atávico, constitui rico e denso patrimônio cultural a todos os goianos.
Ao que parece, talvez, um dia, pela onda destruidora do hoje, o Cerrado só exista mesmo em esculturas e sentimentos de artistas da sensibilidade aguçada de Caraíba.
A paisagem goiana derrama-se em flores de significados, como ipês chovendo pétalas amarelas, no chão de nossa sensibilidade. É preciso uma Geografia que ame o chão de Goyaz! Uma Geografia que encontre o homem goiano em sua genuína gênese. Não apenas uma ciência que investigue pela ótica técnica e preconceituosa o que os viajantes e doutos homens que aqui vieram em séculos passados, caçoaram de nossa gente perdida no sertão. É mister uma Geografia do sertão de Goyaz!.
No solo adusto, solitárias e vistosas, singelas flores abrem-se suavíssimas ao mistério da vida, entre o verde escuro das folhas. Em torno, pelo Cerrado, a liberdade dos cervos, das aves, colibris, lobos-guará, tatus, corujas, seriemas, cobras. Tudo é vário. Assim, entre as ideias, os seres, o espaço; entre a palavra e a coisa, teríamos a razão natural e a razão mágica, o símbolo, o milagre, os reflexos da vida, reunião de diferentes, num território comum. Onde tudo isso foi parar?
Tudo está inserido indelevelmente no trabalho de Caraíba, encontrando sentidos para os “pedaços de pau”, que ganham vida e ternura sob o impacto de seu próprio coração.
É difícil não se apaixonar pelo Cerrado e poetizá-lo, mesmo nas flores singelas que brotam das cinzas pós-queimada. Grandes tratores ocupam os habitats dos animais; arados rasgando a terra e transformando o horizonte num deserto avermelhado, pois o centro do Brasil de repente virou celeiro.
Vicente Augusto (Caraíba) é um amante do Cerrado e ama com ternuras de toques e sutilezas em suspiros e sentimentos profundos.
Lição maior nos dará o Cerrado a se apresentar denso e significativo depois da carícia artística de Caraíba. Esse Cerrado que suportou o impacto de três capitais no coração do Brasil, suspira e geme a cada toque sutil de um jovem artista goiano que, na suavidade ou força de seus dedos, traduz eternidades e amanheceres de um novo tempo.
Na Geografia Cerratense de Goiás há um cadinho especial ao grande artista Caraíba.
Leve às frias paragens alemãs a alegria das alvoradas de periquitos goianos, o murmurejo dos rios Vermelho, Meia Ponte, Araguaia e Paranaíba. Leve nosso calor e nosso sol e traduza por lá os dizeres poéticos de todos os nossos corações, que se harmonizam nas sinfonias dos brejos nas tardes de bochorno.
(Bento Fleury (Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado), graduado em Literatura pela UFG, mestre em Literatura pela UFG, mestre em Geografia pela UFG, doutorando em Geografia pela UFG, poeta, pesquisador - bentofleury@hotmail.com)
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