segunda-feira, 9 de junho de 2014

Não tem choro nem vela, agora é a camisa verde e amarela

Por Iram Saraiva
A bola tem de ser tratada com carinho. A sua feminilidade rolada na grama é de encantar qualquer multidão. Tocada por 44 pés não se sente maltratada quando sabe que cada chute que leva sai da alma de um craque. A sua trajetória, depois de tocada, descreve no ar o soneto com todas as notas musicais rumo ao gol, destino buscado por ela até o silêncio final abafado pela rede mansa que a acolhe misericordiosamente. Ao ser amada por amantes carinhosos, a bola, com as suas formas perfeitas, corresponde de imediato aos afagos de calcanhar, de três dedos, de peito de pé, de cabeça, sempre enamorada e pronta para ser a musa que inspira o drible perfeito. Ah, a bola já foi acariciada por geniais maestros. Como poderia ela se esquecer de um Garrincha, um Pelé, um Tostão, Um Didi, um Gerson, um Rivelino, de magistrais jogadas que encantaram o mundo? O único tempo que interessa à bola é o de noventa minutos. No mais, pode chover, fazer sol, de dia ou de noite, com ou sem vento, ela não se faz de desentendida: rola de pé em pé e voa solene com a cabeçada bem dada. A bola nasceu para ser, e fazer feliz. Se maltratada fica quadrada na hora. Ela não convive com o perna-de-pau. Espana mesmo, além de ficar oval, ziguezagueia sem rumo. Geometricamente perfeita não aceita relacionamento qualquer. A cada quatro anos o mundo enxerga a bola com olhos diferentes. As torcidas de cada time vestem as camisas nacionais, enquanto as pátrias calçam as chuteiras. E tudo fica resumido numa única frase: “Aguenta coração”. Meu coração corintiano durante este mês é “canarinho”, bate acelerado, e sonha com o Hexacampeonato Mundial. Deixo para depois a rivalidade saudável quando a bola voltar a correr nos campeonatos que disputamos por este Brasil afora. A paixão já entrou em campo. Agora é torcer, torcer, e pronto. Que os deuses das arenas reconheçam o valor dos nossos atletas e nos entreguem a taça como forma de reconhecimento pela luta travada para que aqui o mundo saiba que somos mais de 200 milhões de almas que vivem de esperança. Tiramos do carnaval, do futebol e do samba a Cafusa que vai rolar para ser consagrada como a “gorduchinha” que deu certo. E que de 1950 nem lembrança fique mais. (Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)

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