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sexta-feira, 6 de junho de 2014
Nem tão previsível
Por Iron Junqueira
Nem tínhamos nos refeito do passamento súbito do irmão Osair, que nos deixara a 09 de março deste ano, fomos surpreendidos com o internamento do mano Adolvano, o sexto pela escala de nascimento, ao ser acometido por um agravamento de enfisema pulmonar, que vinha padecendo a algum tempo, após ter deixado de fumar, o que pôde esticar sua existência por alguns anos. Veio a óbito dia 12/05/2014, lanceando de pesar o coração dessa família numerosa e muito unida. Deixou viúva a Sra. Wilma Amorim Junqueira e sem sua presença os filhos Adriano, Karine, Luciano e Karla. Ele cuidava pessoalmente da esposa que sofre de Alzheimer, enfermidade que a isentou de sofrimentos alternadamente, ora estando consciente do que ocorrera, ora ausente do que acontecera, devido a interferências esporádicas da doença que padece.
Os filhos transtornados, os amigos tristes, os primos e irmãos, surpresos, por uma perda (temporária conforme nossa crença espírita) que era de alguém muito próximo a todos, devido ter sido aquele que carregava a tocha da harmonia e da união familiar, e a dos amigos de infância que soube cultivar. A todos visitava sem exceção, mesmo aqueles mais retraídos que nunca apareciam no seio da parentela, sendo eles da mesma consanguinidade.
Mas é assim mesmo, família é constituída pelos laços do espírito, nem sempre pela presença do mesmo sangue nas veias de cada qual. Se bem que o Adolvano tentou. Ia estar na casa de todos, tanto os mais chegados quanto os menos próximos. Era um dom de quem ama o próximo, sobretudo os mais próximos, os familiares. Seus amigos me surpreenderam quando no velório encontrei os antigos companheiros de sua infância e da nossa adolescência: o Camilo, o Damião, o Jarbas e vários colegas de trabalho e do Tiro de Guerra, além dos Cordeiro distantes.
Foi quando notei que, certamente, tive mesmo uma existência por demais agitada pelo fato de ter reconhecido amigos que não mais os encontrara pelos caminhos da vida, revendo-os apenas ali, no momento de segurar os ramalhetes dos que demonstram seus pêsames e carinhos com rosas e lírios. O Dan, como era chamado na intimidade, foi repórter, redator, contador ao lado do Osair, Élio e Ione. Trabalhou durante toda sua vida na interminável seara espirita, amparando drogados, alcoólatras, idosos, crianças, dando-lhes esclarecimentos doutrinários. Por fim, laborava com lapidação de pedras de granito, para pisos nas construções. Tudo fez para encaminhar os filhos segundo uma profissão com o perfil de cada um. Estava respirando com dificuldade devido à insuficiência pulmonar, jamais, porém, entregando os pontos ou jogando a toalha à mesa.
Se fosse preciso navegar, lá estava ele com as velas abertas aos ventos do mar. Até que a tempestade passasse — e seu Barco também.
Foi para a Cobertura Azul, ao encontro dos pais e três manos, a quem, certamente, foi saciar aquela saudade que sentia pela falta deles. Só que, para abraçar os que nos antecederam, temos que deixar os que amamos aqui, na arena das provações e aprendizados humanos. Mas assim tem que ser. E o que tem que ser, será.
O Grande Pai não nos reclama à presença na Cobertura Azul por ordem cronológica, certamente pelo critério do merecimento. Por isso, sendo assim, vai aos poucos deixando para depois, no meu caso, os mais recalcitrantes, e mirando as flechas de São Sebastião para quem Ele achar seja a sua vez.
Da minha parte, aguardo sua flechada para quando Ele achar justo, certo e conveniente. O importante é a gente ter adquirido a lição final, e a entendido bem, quem sabe não seja eu, ainda, um aluno aplicado. Mas prometo melhorar daqui para frente. Não serei um Moacyr, um Osair, nem um Adolvano, mas serei o pecador que caminha rumo ao combate final e, vencido este, meus irmãos terão preparados, por Lá, nas paragens espirituais, as tarefas não bem executadas por mim, nesta arena de redenção.
Deverei ter umas passagens pelos Umbrais e reparar a indiferença com que desprezei os antipáticos representantes de ordens políticas (alguns) e religiosas, aqueles, principalmente, que prejudicam o povo. Não me reconciliei, ainda, com eles.
Vencendo patamares ascendentes, nada lamentarei do que deixar na terra, de bom ou de mal de tudo o que fiz.
Se algum bem eu fiz na vida, foi de coração; ou se de mal, foi por ignorância ou por estar consciente de que no mundo o chicote ainda está muito leve pela espantosa quantidade de danos que os homens fazem, do paraíso da terra, o inferno dos que lutam, pensam e sofrem.
Irmãos! Deixem de prontidão a minha espada, pois chegarei aí para lutar, porque não acredito no descanso indébito nem no céu dos venais.
Até um dia! Não muito longe, nem tão perto, nem tão previsível. Sei lá.
(Iron Junqueira, escritor)
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