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segunda-feira, 2 de junho de 2014
O desenvolvimento do subdesenvolvimento do Tocantins
Por Salatiel Soares Correia
Saí bem cedo de Goiânia rumo ao norte do estado, trafegando pelo principal eixo estruturante imaginado e concebido nos tempos do ex-presidente Juscelino Kubistchek, conhecido como a Belém-Brasília. O rumo era certo: o Tocantins.
No trajeto, lembranças povoavam o meu imaginário. Quem faz esse longo e extenso trajeto trazendo dentro de si a lupa do tempo, por meio da qual passado e presente tornam-se uma coisa só, percebe a influência benéfica que foi a divisão de Goiás em dois estados. Tanto uma banda como a outra ganharam com essa divisão. De um lado, Goiás passou a dispor de mais recursos para atender seu desenvolvimento; de outro, com o Tocantins, vieram não só uma estrutura política própria como também recursos próprios voltados para o desenvolvimento de sua gente.
Bem me lembro de quando os dois estados eram uma coisa só, dos velhos grupos geradores movidos a diesel em desuso na terra de Pedro Ludovico, que serviam de desova para atender o então nortão goiano. Porto Nacional, Gurupi e Araguaina respiravam mesmo eram o diesel dos geradores e muita poeira.
O asfalto da Belém-Brasília, mesmo repleto de buracos, faz-me lembrar do lamaçal de uma rodovia de chão batido que, quando chovia, era um Deus nos acuda. Levava bem uma semana para chegar a Araguaína.
No Tocantins dos anos de 1960, faltava tudo — médicos, saneamento básico. Como exalavam mal aqueles mictórios escavados no chão bruto! A desnutrição infantil não fazia inveja aos mais pobres países da África. A face mais visível do subdesenvolvimento mantinha o povo do Tocantins preso às suas amarras.
Continua a viagem e o vagar de minha imaginação. A lupa do passado se conecta agora ao presente. É bem verdade que a dimensão infraestrutural do desenvolvimento começa a tornar-se uma realidade na terra de Souza Porto. A globalização se espalha pelo mundo em forma de teias. E a teia que cabe ao Tocantins se expressa na vocação natural com que a região vem se inserido nessa nova ordem: através do agronegócio e da exportação de energia.
Com essa ideia na cabeça, saio da Belém-Brasília, entro em Guaraí e chego à recém-inaugurada Rodovia da Soja. Soja de um lado e asfalto de outro seguindo a mesma lógica. Uma lógica que parece ser comandada pelo estado, mas não é. O asfalto chega, apesar dos governos. Chega para servir ao agronegócio e seus objetivos de exportação. A ferrovia Norte-Sul também não foge dessa lógica; as grandes hidroelétricas, idem. Pura dinâmica do capitalismo internacional do qual os estados são atores passivos.
Eis aí a face visível do desenvolvimento do subdesenvolvimento. Não o desenvolvimento do desenvolvimento, que inclui a sociedade via algo que verdadeiramente faz as pessoas melhorarem seus padrões de vida no mundo globalizado: a educação. A velocidade com que chega a infraestrutura é avassaladoramente maior que a da educação. As cidades à margem da Belém-Brasília se desenvolvem. Mas o Tocantins de verdade ainda se encontra preso num tempo só dele. Um tempo, como nos versos de Drummond, no qual um homem vai devagar, um cachorro vai devagar, devagar as janelas se fecham. O presente não é mais o passado. O futuro de oportunidades ainda está léguas distantes. Fim de viagem. É hora de um bom banho e desfrutar de um prato típico que muito me faz lembrar os hábitos do sertão, que nunca saiu da alma de meu saudoso pai: carne seca acompanhada de leite com farinha de puba.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento é autor, entre outras obras, de A Energia na Região do Agronegócio - E-mail: salatielcorreia1@hotmail.com)
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