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segunda-feira, 9 de junho de 2014
O dilema da USP: mudar ou mudar, eis a questão
Por Gilberto Alvarez
No ano em que completou 80 anos, a Universidade de São Paulo (USP), tradicionalmente a mais bem rankeada instituição de ensino superior brasileira, perde para a Pontifícia Universidade Católica do Chile (UC) a primeira posição no ranking de instituições latino-americanas do grupo Quacquarelli Symonds (QS) University Rankings, publicação britânica responsável pelas principais listas do mundo.
Essa notícia surge em um momento em que a USP discute mudanças no ingresso de seus alunos, passa por problemas financeiros e vive uma crise de credibilidade, deixando, pela primeira vez, de ser preferência entre os vestibulandos brasileiros.
A USP nasceu com o propósito de formar os melhores profissionais e cientistas do mercado e ao longo de sua história tem cumprido essa missão com maestria. Mas as circunstâncias históricas mudaram e não é mais possível manter velhas fórmulas e métodos como se nada estivesse acontecendo.
A chegada do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ampliou as possibilidades de acesso ao ensino superior. Em 2012, por exemplo, 91% das vagas nas universidades federais poderiam ser ocupadas por meio do exame. Nos últimos quatro anos, o número de vagas presenciais saltou de 169,5 mil para 283,4 mil e, em 2014, como já se esperava, o número de inscritos bateu o recorde e encerrou o sistema com mais de nove milhões e meio de estudantes buscando a oportunidade de conquistar uma vaga nas principais universidades do país. Entre universidades federais e estaduais somam-se 124 instituições.
O Enem pode não ser ainda o mecanismo ideal de avaliação, mas o fato é que ele é hoje a mais competente ferramenta de democratização do acesso ao ensino superior. É um exame que abre portas para que uma pessoa estude em instituição pública de qualquer estado do Brasil, obtenha financiamento para estudar em instituição privada, mesmo no exterior, e que tem sua nota considerada na avaliação em processos seletivos - prática cada vez mais adotada pelas empresas para preenchimento de vagas. E a USP, até agora, não faz parte desse processo.
Não há dúvida de que é preciso pensar em um modelo que possa ampliar a capacidade da USP de descobrir e acolher talentos. No exterior, há anos o processo seletivo não se restringe a uma prova; são considerados o desempenho escolar, a entrevista pessoal, cartas de recomendação, além, é claro, dos exames de capacitação. Se adotasse essas ferramentas, a instituição teria condições de identificar talentos que não prestam a Fuvest, por exemplo, simplesmente por ser um exame caro que habilita apenas a uma universidade.
Além dessas questões, há o agravante de que o governo do Estado vem sonegando recursos às universidades estaduais paulistas. Em 2013 deixaram de ser repassados R$ 540,41 milhões, limitando a capacidade dessas universidades de pagar contas e, sobretudo, investir para aprimorar. Uma universidade de excelência como a USP, tão respeitada e cara aos brasileiros e aos paulistas, não deveria ter que pensar em como se equilibrar financeiramente, mas como aumentar seu número de vagas sem perder a qualidade e ampliar cada vez mais sua capacidade de influenciar e transformar uma geração de pensadores.
(Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli e especialista em Enem)
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