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terça-feira, 10 de junho de 2014
Ofício de escritor
Por Martiniano J. Silva
Publiquei no jornal Imprensa Livre, de Mineiros, direção do jornalista Fernando Brandão, Julho/Agosto de 1992, artigo chamado Ofício de Escritor, fazendo parte do livro Escrito nos Jornais (2007), selo Kelps, do escriba. Quando escrevi o texto, com 55 anos, o Brasil vivia uma fase de muita violência noticiada nos meios de comunicação. Era triste, porém considerada “suportável”. Hoje em dia, 22 anos depois, quando alcancei 77 de idas e vindas advogando, proferindo aulas, escrevendo livros, tentando me amadurecer na vida intelectual, percebo que a situação piorou: além de amplamente difundida e até execrável, a violência tornou-se cotidiana e intolerável. Está vulgarizada, banalizada, a tal ponto dos crimes de linchamentos, por exemplo, estarem virando tribunais de rua! Então, para que escrever livros? Para que esse “oficio”, que seria sagrado? O que andam fazendo a Educação? A moral, com sua filosofia ética? E as religiões (existe até a dos sem ela), o que andam fazendo? Enfim, as normas legais? Por que o Estado deixou o assunto se distanciar desse tamanho? De todo modo, já que não tenho limites para interrogações, pretendendo continuar escrevendo, transcrevo para os possíveis leitores, o texto publicado anteriormente, para mim ainda oportuno.
Creio que nem todos sabem que o ofício de escritor é um dos mais difíceis que se possa imaginar. Já foi chamado de sacerdócio. Chegou-se a imaginar ser o escritor uma espécie de mensageiro divino. Teria um dom todo especial, distinguindo-o dos seus semelhantes. Tivemos um tempo no qual o seu recado era a eterna busca da perfeição e da beleza. Não havia questionamentos históricos, políticos, dialéticos. Um exemplo disso poderia ser o do tempo em que a Arte (com A maiúsculo), era exclusivamente laser. Certamente o da “Arte pela Arte”, que, obviamente, pode tomar outros tipos de conotações, interpretações.
Porém, depois que o gênio Karl Marx surgiu no mundo criticando os filósofos que se limitaram a interpretá-lo de diversos modos, afirmando que “o importa é modificá-lo”, o papel do escritor, aqui colocado em sentido, mais amplo possível, passou a ser diferente. Houve a inserção de outros valores, com o objetivo de igualá-lo a todas as outras categorias sociais.
Como exposto, o escritor é, antes de tudo, queira-se ou não, uma pessoa dotada de requisitos ou características essencialmente históricos: desde que é gerado, num ventre materno ou num tubo cônico (proveta), necessita, em primeiro lugar, de comer, beber, ter um teto e proteger-se com algum tipo de vestimenta, antes mesmo de ser estimulado a sair por aí, como um louco, exercendo, o papel de Dom Quixote, visionário, anarquista, agnóstico ou arrivista qualquer, fazendo política, ciência, arte, religião e outras coisas que só o engenho humano seria capaz de fazer. A missão a que me refiro é no sentido de ofício. Ofício de escritor, que é também o nome do livro homônimo do mestre e renomado historiador Nelson Werneck Sodré. Assim, acredito ser esse ofício o de uma testemunha do espetáculo da vida, do amor à vida em suas mais incríveis e variadas facetas na sociedade.
Concluo que o papel do escritor, nos tempos modernos é, fundamentalmente, o de transpor para o que escreve a mais pura realidade, a mais autêntica verdade, com as quais a sociedade poderá fazer reflexões e partir para a transformação do mundo. Então, dentro desse âmbito, o ofício de escrever o amor e a paixão são indispensáveis, porém sem a sua conotação egoísta, burguesa e discricionária. Assim, ao escritor, entre tantos outros papeis fundamentais, creio como essencial o de fazer o povo pensar. Mas, pensar causando com mensagens dignas a transformação do mundo.
A transformação de uma civilização insustentável ecológica, política e socialmente. Nem importa, aliás, o tamanho do seu mundo em aspecto geográfico. O que importa é a sua firme e inexorável convicção de que a Arte, que nem existiria se não fosse justa, democrática e imparcial, não se subordina a qualquer injunção, a qualquer opressão. Não se condiciona ou limita, portanto, a nenhum tipo de espaço. A nenhum tirano ou ditador. Nenhum Pinochet da vida lhe vedará a trajetória histórica indelével. É que a arte, em sua beleza e caráter social e político, em quaisquer de suas modalidades, comove o inculto, incomoda o tirano e limita a ação do medíocre, às vezes até higienizando as mentes contaminadas pelo vírus da ignorância (note-se que o “vírus” não é só o do Césio 137, causado pela inoperância e incompetência dos que “administram” o País, num caso ocorrido em Goiânia).
Está visto que o escritor, através da Arte, exerce um papel político da maior importância, mesmo porque o ofício cultural não pode prescindir do ofício político, na sua melhor acepção. Um não sobrevive sem o outro. Nem o econômico, nem o ético. Assim, mesmo que temerário e penoso, tenho como importantíssimo o desempenho de todos os que lutam em prol da Arte e da Cultura, principalmente, quando se transformam em requisitos imprescindíveis à formação de um cidadão (ou indivíduo?) no que ele tem de mais importante, que é a sua dignidade. Por isso, é preciso repetir que o principal papel do escritor é a busca da verdade, a última delas (doa a quem doer), transpondo para o que escreve o máximo de realidade com imprescindível honestidade. Num sistema político-econômico onde o fundamental é escamoteado pela “mesmice torturante” da ideologia da corrupção, esse desempenho do escritor se apresenta como dos mais difíceis, inclusive porque não se deseja que o povo pense e bote no que pensa a ideia de transformar o mundo. É difícil!
(Martiniano J. Silva, escritor, advogado, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, UBEGO, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM, autor, dentre outros livros, Judiciário de Mineiros: 70 anos de Comarca/140 TJGO, a ser lançado em setembro próximo -martinianojsilva@yahoo.com.br)
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