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segunda-feira, 9 de junho de 2014
Professores e o espaço da sala de aula
Por Clodoaldo Ferreira Fernandes e Elizete Mendes Florentino
Bons tempos aqueles quando a profissão de professor era valorizada e motivo de orgulho, época em que os alunos tinham o prazer de aprender e agradar o mestre com elogios e afagos. Era o período, se a memória não nos falha, recebia-se um salário menos achatado que na atualidade.
Infelizmente, tudo isso mudou. Ultimamente, o professor não pode nada, nem sequer fazer seus próprios planos de aulas e/ou anuais, pois a cartilha do bê-á-bá já chega pronta, basta que repitamos os dizeres e as matérias impostas que tudo está “indo bem na educação pública”, afirmam alguns. O pior de tudo isso é que, mesmo partes das imposições não condizem com a real necessidade de ensino-aprendizagem, se é que esta exista. Mesmo assim, o mestre deve ser engessado, pretendendo objetivos inalteráveis no sistema do SIAP (Sistema de Apoio ao Professor), por exemplo. Se o plano anual não houver os objetivos assinalados antes do lançamento no sistema, nada pode ser feito. Dessa maneira, toda turma é padronizada, fabricada como um modelo em série de pessoas.
Na contemporaneidade, o docente perdeu a capacidade de agir por conta própria, porque dele foi amputado o seu direito: mediar o processo de ensino-aprendizagem como meta a ser alcançada ao longo do ano. Este profissional (incluímos no rol), pelo que constata, é tratado como um robô, uma máquina fria e impessoal programada para e-xe-cu-tar modelos, dogmas, números. Uma máquina não opina, não transforma, não reivindica, somente se assujeita ao sistema de programação dado pelo seu programador. Neste sentido, ao pensarmos em educação, percebemos que esta está caótica e uma grande parcela da sociedade não está se importando com isso, não se envolve porque alguns podem pagar uma escola particular para o seu filho, na ilusão de que também terá educação de qualidade, ledo engano. Sem querer decepcionar essas pessoas que pagam, uma escola de real repertório cultural oferecido aos alunos, custa valores estratosféricos, logo, poucos realmente têm educação de qualidade.
Ao transitar pelos ambientes escolares, constata-se que o que se importa numa educação neoliberal é somente formar para o mercado, as instituições bancárias com projetos que educam “jovens para o futuro” rumo ao trabalho irreflexivo, e o Estado transfere a sua obrigação porque quer outras prioridades lucrativas. Assim, o deus é o mercado que seleciona. A parte humana é deixada de lado nesse processo, o que se valoriza é a competição e por isso, o vestibular torna-se uma arma letal para que criemos máquinas de concorrência no mercado. Sendo assim, as escolas brasileiras passam a ser somente números que se traduzem em metas falaciosas, para que as verbas cheguem. Portanto, a “capacitação de professores” é uma utopia o discurso do “pacto”, outra palavra neoliberal. Sendo assim, a maioria dos cursos oferecidos pelas Seducs, só reproduzem o caminho inverso que as faculdades de educação no país postulam: pensar o mundo para transformá-lo. Isso acontece porque para os governos a voz acadêmica não é relevante, porque denuncia o descaso perpetuado desde há tempos pela gestão brasileira. Assim, quando pensamos a qualidade dessa “capacitação”, esta não existe, porque na e a partir dela, só se reproduz a mecanização, memorização, padronização, modelos estes adotados em sala de aula desde décadas em nosso Brasil.
Seguindo nesse caminho convergente, essa prática perversa só demonstra o que afirmou o professor Vitor Paro, docente titular da Faculdade de Educação da USP em entrevista ao site UOL. Educação: “A escola que está ai não é ruim porque tem pouco tempo, ela é ruim porque tem um método ultrapassado e não existe a preocupação de educar. Só existe a preocupação de passar de ano. A nossa escola não é ruim hoje, ela sempre foi ruim”. Dito de outro modo, os cursos de (in)capacitação na maioria das vezes, não refletem sobre o sujeito aluno e professor em contextos sociais específicos, mas compreendidos como indivíduos descontextualizados que são programados, um para aprender ( como uma tábula rasa) e o outro, para ensinar ( como um reprodutor do sistema capitalista elitista).
Ao profissional da educação é negado o direito de ser humano. Sim, ser humano pressupõe ter necessidades biológicas básicas, tais como, comer, beber etc. Comer é um verbo que não se usa na escola pública, pelo menos nas normas vindas de algumas secretarias. A ‘farofa’ negada, ou como alguns chamam, o lanche dos alunos, a este profissional não é dado. Quer dizer, o docente não come e não necessita de alimentos, somente os discentes precisam ser alimentados após quase três horas de aulas.
Deslocando da sala de lanche, quando um docente almeja oferecer uma aula com recursos tecnológicos, mesmo que não saiba, é imputado-lhe a habilidade que nem sequer foi oferecida no domínio dos aparatos. Por onde anda o dinamizador, profissional que dava-nos suporte neste ambiente? Pelo que parece, foi retirado de seu cargo, com a suposta afirmação de “cortes de gastos”, como se reduzem gastos e aumentam a publicidade? As agencias fazem caridade para o governo? Livros didáticos para que? Por mais que haja o PNLD, estes viraram museus, pois outra cartilha foi criada para que os alunos sejam ‘ensinados’ com eficácia, para quando chegar as avaliações que ‘diagnosticam a aprendizagem’, possa traçar o panorama de uma “boa educação”.
Vivem-se tempos em que os professores sentam no banco dos réus, para serem julgados. Os crimes? São vários. Um deles, se deram uma boa aula, engessada como manda o sopa de letrinhas, a pena será amena, com direito à semiaberto. O controle do “olho que tudo vê” não é mais no panóptico tratado por Jeremy Bentham no final do século XVIII, mas dos coordenadores pedagógicos, gestores e colegas professores, com os seus relatórios e colhimento de assinaturas dos docentes, papeis são os substantivos da ordem. Se ainda assim, professores ousarem adoecer, serão punidos porque o bônus-(des)reconhecer, não será creditado em sua conta salário, a percentagem mínima deve ser respeitada ( vide os números controlando-nos). Passivamente, muitos educadores altercam de maneira simbólica, exercendo o controle dos corpos e gestos dos colegas para que não seja dado o dinheiro a mais a ninguém. Ainda que este mesmo bônus seja pago com a retirada de direitos adquiridos de grande parcela do professorado, muitos sentem-se felizes porque comprarão produtos novos de consumo. Por falar em mercadorias, que tal uma televisão para a Copa de 2014? Promoção...
Outro problema, como pensar educação de qualidade se cada dia criam-se mecanismos para que o aluno tenha o direito de ser aprovado sem a lei do mínimo esforço? Durante o ano não se escreve nada no caderno porque não se leva nem o caderno e o lápis, não se carrega nem o livro didático, porém, são aprovados em progressões que escravizam o docente e o transformam em um profissional que executa o que chega de cima, sem ao menos dar-lhe o direito de ser aquele licenciado em curso superior. Para quê professores se qualquer pessoa leciona licenciatura em área distinta? Há engenheiros que lecionam Matemática, biólogos que lecionam Artes e Filosofia, pedagogos ensinando o português ‘alinguístico’, sem reflexão de teorias da linguagem. São tempos de cegueira total...
Os papeis se inverteram. A voz é dada ao sujeito aluno e silenciado o sujeito professor. Por que ambos não podem gritar reivindicando uma educação de qualidade? Será que todos os discentes compreendem os seus direitos e interpretam os bastidores da escola pública no Brasil sem alguém que medeia esse entendimento? Quais profissionais a escola/Estado está dando o direito de ascender no mercado de trabalho e no mundo contemporâneo que exige um sujeito pensador das mazelas do coletivo, se os ‘chefes’ do poder negam esse direito de permanência nesse ambiente institucional?
É notório que o papel da escola mudou, no entanto, continua engessada, burocrata e punitiva. O que realmente valia a pena no passado, os valores de família, urbanidade não existem mais, são líquidas mémorias. Hoje, o que se vê nos intramuros são as drogas, a violência, o descaso, o desrespeito pela humanidade. Como professores podemos afirmar que a morte chegou às escolas personificadas em esqueletos de ruínas, prédios velhos, banheiros insalubres, condições mínimas para um “pacto pela educação”. Não, não e não. Não seremos o calvário e/ou punidos do sistema de educação falho que não fora criado por nós. A culpa não é nossa e nem dos alunos, é de todo um aparato complexo em que governantes empurram a responsabilidade de um para a gestão de outro. As políticas públicas para a educação não se fortalecem porque não é prioridade no Brasil, já que a educação pública é herança de uma necessidade do povo ser preparado para o mundo do trabalho em décadas de outrora, uma vez que a elite carecia de mão de obra especializada.
A escola é mais que isso, mundo do trabalho. Ela nem forma para isso. A instituição escolar pública tida hoje na maioria das vezes é reprodutora de números que não condizem com a realidade. Nossos discentes não aprendem como se afirmam os dados e a publicidade, esta última é comprada a bel prazer: pagou levou uma boa aparência. Tudo se pode mascarar no mundo da ideologia. Ainda que haja parcas aprovações de alunos da escola pública em cursos concorridos nas Instituições de ensino superior (IES), percebe-se que não há letramentos múltiplos para os estudantes desenvolvê-los. Terminam o ensino médio sem saber interpretar o mundo que os cercam.
Portanto, como docentes da escola pública, do qual o nosso lugar de fala advém desta instituição, uma vez que no passado estudamos nela, reivindicamos o direito à educação. Como profissionais, não almejamos somente incentivos inócuos de duzentos reais, que o Pacto pela Educação prometeu. Ambicionamos que seja dado o direito à formação continuada que condiz com a realidade do mundo social. Desejamos que a educação não seja dada em segundo lugar em relação às obras de alvenaria e aos mimos de Nylon que carregam o peso do cotidiano na escola, que está maquiado por interesses discursivos que fabricam uma boa imagem na sociedade. Deixamos claro que a sociedade não está mais absorta sobre as responsabilidades básicas da máquina pública.
Sendo assim, não podemos ser punidos porque protestamos sobre algo que é secularmente negligenciado. Queremos que o bônus dado pelo governo não nos condicionem como ratos da educação, ao contrário, desejamos que o direito adquirido seja devolvido e a valorização da carreira docente seja atrativa para os jovens, afinal, somos mais que executores de cartilhas e livro didáticos, somos mais que vítimas corporificadas pelos discursos da sociedade e mídia em geral, somos mais que ‘operários diplomados’, somos PROFESSORES que têm a arma de transformação social: o espaço da sala de aula.
(Clodoaldo Ferreira Fernandes, professor de Língua Portuguesa da SEE de Goiás, supervisor do subprojeto do PIBID-Letras da Universidade Estadual de Goiás, mestre em Educação, Linguagem e Tecnologias pela Universidade Estadual de Goiás - E-mail: aldoff25@hotmail.com / Elizete Mendes Florentino, professora de Língua Portuguesa da SEE de Goiás, supervisora do subprojeto do PIBID-Letras da Universidade Estadual de Goiás)
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