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segunda-feira, 9 de junho de 2014
"Almoço cultural" - Presenças de Geraldo Coelho e Miguel Jorge
Por Hélio Moreira
Nesta 3ª feira (03/06/2014), como acontece a cada 15 dias reunimos, Aidenor Aires, Eurico Barbosa e eu, para um almoço que apelidamos de “Almoço Cultural”; sempre convidamos um ou dois amigos para fazer-nos companhia na “ágape” e, principalmente, participar das nossas discussões culturais . Hoje tivemos a satisfação de contar com a presença dos confrades da Academia Goiana de Letras, Miguel Jorge e Geraldo Coelho Vaz.
“Exploramos”, o mais que pudemos, os dois companheiros de viagem nas lides culturais; quando o assunto foi focado no último romance do Miguel Jorge “Minha Querida Beirute, Ed. Kelps, 2012”, Geraldo, usando a sua memória retroativa extraordinária, fez um breve histórico da vida e principalmente dos costumes de várias famílias árabes que se instalaram na região de Catalão e Ipameri na metade do século XX, com este preâmbulo ele deu o “mote” para o Miguel explicar-nos a movimentação dos personagens e da trama do seu livro.
Miguel discute sua técnica (abre o jogo!) para escrever um romance, e responde a várias perguntas que lhe foram formuladas por todos nós; quando questionado sobre a sua idealização do personagem principal do livro (Capitão Monsalim), respondeu-nos que, antes de tudo, ele “criou e desenhou” esta figura e ao começar a escrever o romance, já sabia quase tudo o que ele, Monsalim, iria fazer na trama, embora, em alguns momentos, um ou outro personagem obrigou-lhe mudar alguns detalhes do rumo das suas movimentações as quais ele as imaginara com antecedência, mas este personagem (Monsalim), praticamente, fez “tudo o que ele, Miguel, desejou que fizesse”.
Quando o questionei se ele concordava que a sua obra, principalmente seus romances, o aproximava de Proust, tendo em vista sua fixação no perfeccionismo literário, respondeu-nos com a maior naturalidade:
- Penso, sem falsa modéstia, que sigo a trilha de Proust.
- Então você confirma que é um perfeccionista da escrita?
- Olhe, algumas vezes interrompi a escrita deste romance durante um dia inteiro, na procura de uma palavra que expressasse o que realmente pretendia dizer a respeito da movimentação de algum personagem na trama, corrijo e volto a recorrigir, elimino trechos que, quando foram escritos, julgava-os perfeitos, porém ...
Para reforçar o que Miguel disse acima, cabe lembrar o que escreveu Alain de Botton (Como Proust pode mudar sua vida, Ed, Intrínseca, 1969): Metade do primeiro volume da Busca do Tempo Perdido, foi rescrito quatro vezes, pois, à medida que relia o que havia escrito, Proust continuava a reconhecer as imperfeições de sua tentativa inicial, palavras ou partes de frases eram eliminadas. Infelizmente para os editores de Proust as revisões não paravam após ele ter enviado seus rabiscos-manuscritos para a gráfica.
Como sabemos, pela voz unanime dos seus biógrafos, Proust possuía um gênio difícil, excêntrico, arredio à aproximação de pessoas desconhecidas e, sobretudo, irônico e mordaz, além de uma “extravagância” que marcou a sua existência - a sua vida em clausura - saia de casa muito eventualmente para algumas atividades culturais (galeria de arte, assistir a concertos musicais, fortuitos encontros com amigos em restaurantes); embora eu não tenha o privilégio de manter um contubérnio mais estreito com Miguel, posso afirmar que nenhuma destas facetas são superponíveis à sua personalidade, principalmente esta última que foi citada, pois diariamente ele pode ser encontrado no período da manhã em uma mesa, (seu escritório, como ele gosta de afirmar!) adrede reservada, em um shopping de Goiânia.
O escritor Carlos Nejar, da Academia Brasileira de Letras, ao escrever o prefácio de “Minha Querida Beirute” tece, como não poderia ser diferente, comentários elogiosos ao livro, com frases que deixariam qualquer escritor envaidecido; “O novo romance de Miguel Jorge, já reconhecido ficcionista, “Minha querida Beirute”, é uma nova etapa e simultaneamente, o extremo de sua experiência nos vários processos narrativos usados em livros anteriores”.
Nosso mestre Nejar chama a atenção de um detalhe, que modestamente, não me passou despercebido, “o discurso psicanalítico que visita esta ficção jorgeana”; Miguel não foge da discussão e, ao falar sobre o personagem Monsalim, principalmente depois da facada que lhe foi desferida na garganta e que o deixou sem voz, obrigando o narrador (Miguel) a dar-lhe voz, levando-o a invocar sua vida passada e como se fora uma catarse, a “desenterrar” fatos que estavam guardados no seu inconsciente.
Embora não tenha tido oportunidade de discutir com o Miguel naquele dia, chamou-me a atenção, sobremaneira, um dos capítulos do livro, “A cachorra Valderez”; peço, de antemão, desculpas pela minha intromissão em seara onde não tenho, a não ser curiosidade cultural, formação na ciência descoberta por Freud - a psicanálise - , porém, tangido pela observação do Prof. Nejar, divido com meus leitores o que apreendi com a prosa do Miguel.
Em um dos livros de Cervantes, “Novelas ejemplares, Argentina, 1962” existe um conto intitulado “El coloquio de los perros”; onde o narrador (Peralta) conta ao interlocutor (Sr. Alferes) uma história inacreditável: - dois cachorros (Berganza e Cipion) que conversavam entre si; não cabe discutir nesta oportunidade o que aqueles dois cães conversavam, gostaria apenas de acompanhar o gênio inventivo do meu amigo Miguel que “colocou”a cadela Valderez para conversar consigo mesma.
Emendando este episodio com o que ocorreu com o capitão Monsalim após ficar sem voz (passou a falar consigo mesmo) sou levado a concordar que a presente obra do Miguel é, como afirmou o mestre Nejar, uma obra carregada nas tintas da psicanálise.
Sou tentado a afirmar que estes “monólogos sem vozes”, seriam a expressão, inicialmente do consciente do capitão Monsalim e que o autor, figurando como analista, traduziu em palavras e, por extensão (da cachorra Valderez), do consciente do autor; o grande desafio a ser desvendado é saber o quanto de inconsciente estava embutido na “voz” de Monsalim.
Realmente, este nosso encontro foi um dos mais profícuos, literariamente falando, destes nossos almoços culturais.
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)
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