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segunda-feira, 2 de junho de 2014
Deixe-me contar enquanto me lembro - George Sand, seu castelo, seus amigos e seus amores
Por Hélio Moreira
Já faz algum tempo (este vilão teima em passar muito rápido quando estamos na fase da vida em que contamos os dias), sei que Marília, como sempre, estava na minha companhia e estávamos em Paris e, como dizia Hemingway, tudo aqui é festa; caminhávamos sem um roteiro a ser seguido, imitávamos um “flaneur” (andar sem pressa e sem compromisso); paramos em um bar, daqueles localizados em boulevards, com mesas nas calçadas, pedimos um champanhe e passamos a discutir nosso roteiro do dia seguinte: visitar o castelo onde morara George Sand, na vila de Nohant, localizada na região central da França.
Dia seguinte levantamos cedo e nos dirigimos para a estação ferroviária (Gare de Austerllitz), onde tomamos o trem que seguia na direção de Chateauroux, e dali até Nohant (36 Km) fomos de taxi, pois os horários dos ônibus não nos permitiriam voltar no mesmo dia para Paris, como havíamos planejado.
Não vou entrar em detalhes sobre o Castelo de Nohan porque já foi motivo de um texto que publiquei aqui no jornal não faz muito tempo, gostaria de ater-me a uma das facetas da vida de George Sand: - seus amores, seus amigos e suas desilusões, tendo como pano de fundo aquele Castelo, palco de muitas destas aventuras do seu espírito.
Aurore Dupin ou George Sand, como ficou conhecida no mundo da literatura, foi uma das mais impressionantes e geniais figuras do romantismo do século XIX pela sua inteligência e, principalmente, pela sua personalidade voluntariosa, haja vista o pseudônimo que passou a usar, jamais se curvando aos costumes machistas da época, quer como mulher, quer como escritora, viveu e pensou com absoluta independência. Ela foi a voz da mulher em uma época em que a mulher estava calada, como refletiu um dos seus biógrafos, André Maurois (Lélia ou a vida de George Sand, Cia.Editora Nacional, 1956).
Casou-se com 18 anos de idade com o Barão Dudevant, com quem não foi feliz e por isto passou a buscar, fora do matrimônio, a realização amorosa que não encontrou sob o teto do Barão, envolvendo-se, dentre outros, com o poeta Alfred de Musset, o pintor Delacroix, que morou com ela no Castelo durante algum tempo, onde tinha, inclusive, um “atelier” de pintura a sua disposição e o compositor Frederic Chopin a quem parece que ela, realmente amou e viveram maritalmente um grande romance no Castelo por mais de sete anos, quando ele compôs a maioria das suas peças para piano, inclusive os famosos noturnos.
Esta fase da vida de Chopin, a partir de 1839 até meados de 1846, mereceria um texto a parte, pois foi nesta época, graças a assistência de Sand que ele, Chopin, conseguiu imprimir um ritmo regular no seu trabalho de compositor, obedecendo a necessidade de dormir mais cedo para melhor se recuperar da sua tuberculose e ela também, vivendo o encantamento do amor, escreveu seus melhores livros.
O Castelo possuía muitos quartos que eram utilizados para receber, constantemente, um grande número de convidados, seus amigos (escritores, musicistas e pintores) que ali permaneciam por longos períodos de tempo, dentre eles Litz, Balzac, Flaubert e Turgenev.
Para dar voz a estes relacionamentos, levo meus leitores a conhecer a sala de refeições do Castelo que fica ao lado da cozinha, facilitando, com isto a movimentação dos funcionários; ali encontramos, impondo-se na majestade do ambiente, uma enorme mesa retangular com dez cadeiras estofadas ao estilo Luiz XVI; em cada um dos espaldares está escrito os nomes dos convidados do dia, provavelmente muitos dos que estavam hospedados (alguns temporários e outros nem tanto), na cabeceira da mesa, como se identifica pelo nome no espaldar, comandando as discussões culturais, sentava-se a anfitriã.
Quase que no final do corredor do andar superior, encontramos o espaço reservado para Sand, aliás, chamando a atenção pela sua grande dimensão (cinco enormes cômodos), destacando-se entre eles, a sua biblioteca e a sala com a sua mesa para escrever, confesso que fiquei emocionado ao me dar conta de que naquele recinto ela escreveu a maioria dos seus romances, principalmente o clássico autobiográfico “Histoire de ma vie – História da minha vida” e, principalmente, uma infindável correspondência com seus amigos e seus amores, alem de um diário.
George Sand foi uma mulher que viveu intensamente seus amores e foi, provavelmente, a primeira mulher a abordar com coragem, problemas de relacionamentos sexuais nos seus escritos; sabemos, pela leitura de alguns de seus textos e, principalmente, pela sua correspondência, que ela se entregava inteiramente e com sinceridade aos seus amores e teve, também, muitos desenganos; seus amigos verdadeiros, como Flaubert, ao lado de dar-lhes apoio, também procuravam, amigavelmente, censurar algumas das suas atitudes.
Leiam comigo o resumo de uma carta que ela enviou a Gustave Flaubert (The Book of Love, Cathy N. Davidson, Penguim Books, 1992), provavelmente respondendo a algum questionamento que ele lhe fizera a respeito da sua vida amorosa; lembrar que por esta época ela estava com 67 anos de idade e estava envolvida com um jovem de nome Charles Marchal, dois anos mais novo que seu filho Maurice:
“ Nohant, 14/9, 1871
Você me pede para parar de amar? Você estaria querendo dizer que tenho cometido muitos erros na minha vida e que a humanidade é má, é detestável e que isto sempre será assim? Você repreende minha angustia como se fosse uma fraqueza pueril, um lamento de quem perdeu uma ilusão? Nunca deixarei de ser jovem, se ser jovem é sempre amar alguém.
Deixe-me supor que nós morremos e que nosso amor não nos acompanhe em outra vida, ausência e morte não são muito diferentes, nós nunca partimos, simplesmente perdemos os sinais da presença do outro“.
Os restos mortais de George Sand estão no cemitério do Castelo de Nohan.
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)
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