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terça-feira, 3 de junho de 2014
Museu da Memória em Mineiro-Go
Por Martiniano J. Silva
Em 21 de outubro de 1993, publiquei no jornal Imprensa Livre, de Mineiros, direção jornalista Fernando Brandão, artigo denominado “Museu da Memória”, o mesmo fazendo em dois de novembro do ano citado, no jornal O Popular, de Goiânia, objetivando fundar e instalar um museu da memória em Mineiros, extremo Sudoeste Goiano. A ideia ficou na esperança e ousadia do escriba por 13 anos, até ser criado pela Lei nº 1304/2006, de 24 de novembro de 2006, sancionada pela prefeita Neiba Maria Moraes Barcelos, quando éramos Secretário da Cultura e Turismo do Município, ocasião em que criamos também o “Arquivo Histórico”, atendendo ao Projeto “Mineiros Tem História”, resultado de estudo e planejamento da Secretaria, onde os eficientes assessores, escritora Marta Brandão, ator Toninho Gomes, administradora Maria Ivaldete (Dete), Cleuza e Naila, foram fundamentais, sobretudo na formatação e realização do famoso Festival de Música “Canto do Cerrado” e “Juninão”, Festival de Quadrilha Junina, inesquecível.
A lei que o criou disse: “Fica criado o museu da Memória de Mineiros-GO, a ter sede e instalação no Centro Cultural Santo Agostinho (CCSA), à 5ª Avenida, s/nº, Centro, nesta cidade”, acrescentando no artigo 2º: “O Museu da Memória de Mineiros, constituído por vários eixos ou dimensões culturais, será administrado pela Agência Mineirense de Cultura (AMINC), através dos órgãos já existentes em sua estrutura administrativa”. A Agência virou Secretaria de Cultura e Turismo, a administrar o Museu, já conhecido nacionalmente, inclusive cadastrado no Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), presidido por Ângelo Osvaldo de Araújo Santos, para onde foi encaminhado pela assessoria da secretaria, já tendo para seu acervo, dentre outros preciosos documentos, jornais encadernados da cidade e interessantes coleções de fotografias antigas e vinis. Foi sobre ele e sua concepção teórica que 20 anos atrás escrevi o texto abaixo:
Desde o tempo em que Mineiros era uma cidade sisuda e fechada, tenho uma vontade incrível de aqui fundar e instalar um museu. Tenho pensado no nome e concluí que poderá chamar-se “Museu da Memória”. E agora, quando a cidade, toda cheia de requififes, vai deixando o seu velho acanhamento, não posso mais esperar. Existe um vasto patrimônio histórico, geográfico, arqueológico, botânico, espeleológico, estético, científico, e sei lá mais... que precisa ser, urgentemente, coletado, classificado e preservado, sem esquecer, evidentemente, o âmbito ecológico, já que não existe museu mais completo do que a própria natureza.
Para isso, além da ajuda de todos, vai ser necessário estudar museologia, como a ciência que “pensa o museu”, e museografia, a que ensina a “fazer-se o museu”. Assim, além do nome, nesse primeiro momento penso em definir o local, a natureza jurídica e, sobretudo, os seus objetivos. Feito isso, é o grande momento, o mais importante, da montagem, derivada de uma difícil mas entusiástica coleta do “material”, formado de cultura institucionalizada ou não. Daí a necessidade da técnica e de pessoas especializadas que, não tenho dúvidas, com o apoio da comunidade e das autoridades, converterão este meu velho sonho em realidade.
Muitos são os objetivos deste museu. De princípio será a preservação da memória coletiva, humana e ecológica. A fonte do lazer, da meditação, da pesquisa e do reencontro com o passado sem o qual o presente não teria razão de ser, e o futuro seria mais do que uma incógnita. Imaginamos, ainda, um museu cujo acervo cultural seja uma fonte de reflexão capaz de erradicar a desesperança e a incerteza em que vivemos, ressurgindo assim a esperança como caminho, instigante, onde as utopias não morrem, e os povos não podem deixar de sonhar. Mineiros, aliás, como as demais cidades do planeta, é um a das mais importantes “esquinas do mundo”, onde a paisagem natural está aberta e urbanizada. É planetária e globalizada. E o museu é tudo isso realçando e representando a condição humana.
Um museu que seja a célula viva da sociedade de um tempo em que a irresistível revolução ecológica paira sobre as nossas cabeças e em que a Ecologia deixa de ser preocupação de profetas de mau agouro, tornando-se, portanto, uma questão, de sobrevivência para a própria humanidade. Assim, o papel a ser exercido pelo museu é bem amplo, precisando, por isso, de um completo apoio oficial, onde o dinheiro deve fazer parte dos orçamentos de forma que não venham alegar a falta do surrado binômio: “verba e pessoal”. Essa visão capenga é carência de iniciativa e não me convence. É, aliás, incompatível com o que impõe e exige o novo movimento histórico da cidade e do universo.
Esse museu é o que Mineiros terá como o melhor guia, caminho, casa e berço dos meus e seus sonhos, portanto, de todos, nascidos ou vindos do Norte, Nordeste, Sul e Sudeste, buscando a felicidade, que não se confunde com o maquiado “prazer individual imediato”, ou esse desenfreado desejo de “prazer e egoísmo”, característico da contemporânea sociedade consumista. Esse “jeito” de ser feliz é antigo, obsoleto e tem feito parte de objetivos dos velhos museus onde a característica essencial tem sido privilégio do “ver” e “cultuar raridades” e falsos mitos tais como reis, rainha, duques, generais e outras elites que tornam chatos e cansativos, já tendo sido chamados até de “armazéns de objetos”.
O museu a que proponho e se firma como um projeto, é completamente diferente do museu clássico, onde a cadeira de Dom Pedro é mais “histórica” que as demais feitas à mesma época. Uma cadeira cheia de “aura” onde só se guarda e preservas “valores” da história Oficial. Ninguém fica sabendo quem fez a cadeira e a forma de produzi-la. Essa visão histórica é anacrônica e omite os demais agentes da história, contrária, pois, à concepção moderna que não admite a existência de falsos heróis ou “elitização” de raridades.
Penso um museu vivo e alegre, dotado de concepção altruísta onde “as artes humanas” estão imunes a qualquer espaço acima das convenções de ordem temporal. É, portanto, um museu contextualizado em visão mundial de consciência planetária onde até o lagarto pode ser chamado de irmão, a ética é mais profunda e libertadora e a palavra cultura já retoma o seu sentido original, ligado aos instrumentos de cultivo agrícola. Acontece que fez um passei filológico por várias línguas onde foi elitizada, tomou estranhos significados, os mais esquisitos conceitos e tendências ideológicas. Porém, o processo de transformação sociocultural em que vivemos exige que retorne à sua origem, simples e humilde. Isto é, antes de ser uma iniciativa espontânea do ser humano, é um fenômeno essencialmente ecológico-social. Uma exigência ambiental, de caráter e natureza até biológica. Assim, o lagarto não administrará o museu.
(Martiniano J. Silva, advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGGO, UBEGO, mestre em história social pela UFG, professor universitário, articulista do DM, autor dentre outros, do livro Judiciário de Mineiros: 70 anos de comarca/140 do TJGO, a ser lançado em setembro do ano em curso)
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