Este é o blog da editoria de opinião do jornal Diário da Manhã. Aqui, a sua opinião acerca dos assuntos e fatos da atualidade serão publicados. Seja bem-vindo!
segunda-feira, 2 de junho de 2014
O desenvolvimento do subdesenvolvimento do Tocantins
Por Salatiel Soares Correia
Saí bem cedo de Goiânia rumo ao norte do estado, trafegando pelo principal eixo estruturante imaginado e concebido nos tempos do ex-presidente Juscelino Kubistchek, conhecido como a Belém-Brasília. O rumo era certo: o Tocantins.
No trajeto, lembranças povoavam o meu imaginário. Quem faz esse longo e extenso trajeto trazendo dentro de si a lupa do tempo, por meio da qual passado e presente tornam-se uma coisa só, percebe a influência benéfica que foi a divisão de Goiás em dois estados. Tanto uma banda como a outra ganharam com essa divisão. De um lado, Goiás passou a dispor de mais recursos para atender seu desenvolvimento; de outro, com o Tocantins, vieram não só uma estrutura política própria como também recursos próprios voltados para o desenvolvimento de sua gente.
Bem me lembro de quando os dois estados eram uma coisa só, dos velhos grupos geradores movidos a diesel em desuso na terra de Pedro Ludovico, que serviam de desova para atender o então nortão goiano. Porto Nacional, Gurupi e Araguaina respiravam mesmo eram o diesel dos geradores e muita poeira.
O asfalto da Belém-Brasília, mesmo repleto de buracos, faz-me lembrar do lamaçal de uma rodovia de chão batido que, quando chovia, era um Deus nos acuda. Levava bem uma semana para chegar a Araguaína.
No Tocantins dos anos de 1960, faltava tudo — médicos, saneamento básico. Como exalavam mal aqueles mictórios escavados no chão bruto! A desnutrição infantil não fazia inveja aos mais pobres países da África. A face mais visível do subdesenvolvimento mantinha o povo do Tocantins preso às suas amarras.
Continua a viagem e o vagar de minha imaginação. A lupa do passado se conecta agora ao presente. É bem verdade que a dimensão infraestrutural do desenvolvimento começa a tornar-se uma realidade na terra de Souza Porto. A globalização se espalha pelo mundo em forma de teias. E a teia que cabe ao Tocantins se expressa na vocação natural com que a região vem se inserido nessa nova ordem: através do agronegócio e da exportação de energia.
Com essa ideia na cabeça, saio da Belém-Brasília, entro em Guaraí e chego à recém-inaugurada Rodovia da Soja. Soja de um lado e asfalto de outro seguindo a mesma lógica. Uma lógica que parece ser comandada pelo estado, mas não é. O asfalto chega, apesar dos governos. Chega para servir ao agronegócio e seus objetivos de exportação. A ferrovia Norte-Sul também não foge dessa lógica; as grandes hidroelétricas, idem. Pura dinâmica do capitalismo internacional do qual os estados são atores passivos.
Eis aí a face visível do desenvolvimento do subdesenvolvimento. Não o desenvolvimento do desenvolvimento, que inclui a sociedade via algo que verdadeiramente faz as pessoas melhorarem seus padrões de vida no mundo globalizado: a educação. A velocidade com que chega a infraestrutura é avassaladoramente maior que a da educação. As cidades à margem da Belém-Brasília se desenvolvem. Mas o Tocantins de verdade ainda se encontra preso num tempo só dele. Um tempo, como nos versos de Drummond, no qual um homem vai devagar, um cachorro vai devagar, devagar as janelas se fecham. O presente não é mais o passado. O futuro de oportunidades ainda está léguas distantes. Fim de viagem. É hora de um bom banho e desfrutar de um prato típico que muito me faz lembrar os hábitos do sertão, que nunca saiu da alma de meu saudoso pai: carne seca acompanhada de leite com farinha de puba.
(Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento é autor, entre outras obras, de A Energia na Região do Agronegócio - E-mail: salatielcorreia1@hotmail.com)
Black blocs, PCC e Estado omisso...
Por Dirceu Cardoso Gonçalves
A suposta união dos black blocs com o PCC, para causar o caos na Copa do Mundo, é uma preocupante afronta ao estado democrático. A fala austera do ministro da Justiça – de que o Estado está preparado para enfrentar os distúrbios e garantir a ordem – não é a garantia de que isso efetivamente ocorra. A simples existência e crescimento do PCC, Comando Vermelho e outras organizações ilegais ou criminosas é o indicativo da fraqueza ou falência do Estado. Tais grupos só se organizaram porque encontraram o vácuo estatal. Se os encarcerados tivessem recebido o tratamento ressociativo que a lei lhes faculta e o Estado mantido o efetivo controle do sistema prisional, não teria o caldo de cultura necessário para a constituição do poder paralelo, hoje presente tanto nas prisões quando fora delas. Da mesma forma, as periferias e os pontos críticos das cidades não seriam problemáticos se os governos tivessem prestado os serviços públicos de sua responsabilidade.
Negligente em sua prestação de serviços, o poder público faz a orfandade da população. Saúde, educação, trabalho, transporte, saneamento, moradia, segurança publica e outros itens só existem com boa qualidade na propaganda oficial e no desacreditado discurso dos políticos, especialmente quando no poder ou disputando as eleições. O divórcio do Estado em relação ao povo é flagrante e torna a vida cada dia mais perigosa. As ações legítimas e necessárias dos grupos que pressionam por melhorias acabam encampadas por radicais e oportunistas de todas as espécies e as bandeiras reivindicatórias restam descaracterizadas. As autoridades pouco ou nada fazem. Quando muito, com cinismo e falta de comprometimento com as causas, mandam a polícia para conter o tumulto. Se não fossem omissas, agiriam antes de se chegar a esse extremo.
Quando a situação já é de distúrbio e a polícia é obrigada a agir, seus integrantes representam o Estado e, invariavelmente, são provocados e acusados de cometer excessos. Paradoxalmente, o policial – que também é uma vítima do descaso estatal e profissionalmente mal remunerado – se vê colocado como adversário dos manifestantes e injustamente perseguido, podendo ser processado, condenado e perder o emprego.
O ministro da Justiça e os governos estaduais prometem ação enérgica e controle da situação durante a Copa. Espera-se que não estejam pensando simplesmente em mandar a tropa de choque das Forças Armadas enfrentar os manifestantes, com a possibilidade de criar novos problemas e até a reação popular, pois são forças preparadas e armadas para a guerra e não para distúrbios urbanos. E que não se esqueçam que, depois da Copa, o Brasil continuará existindo, e os problemas também...
(Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves, dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo) - aspomilpm@terra.com.br)
Consciência ambiental: um trabalho coletivo, incessante e ininterrupto
Por João Gomes
Uma gestão pública que mantenha à frente de suas ações o compromisso com o desenvolvimento constante e a geração de qualidade de vida ao seu povo deve ter foco em dois tempos: o presente e o futuro. Em Anápolis, particularmente, nossa gestão com Antônio Gomide à frente da cidade teve ainda a preocupação – por necessidade das circunstâncias – de se preocupar com o passado. Com um município abandonado em investimentos e ausente de projetos efetivos, tocado no improviso, a cidade perdeu muito espaço e tempo para crescer.
Ao longos destes cinco anos, usamos parte do tempo para recuperar boa parte deste atraso, trocando o espaço das carências por obras, projetos e realizações em diversas áreas. Com isto, reconquistamos todos um novo senso de autoestima e devolvemos ao anapolino a esperança que há tempos ele havia abandonado quanto à viabilidade de sua cidade. Agora, portanto, nesta nova fase em que assumimos o gabinete municipal, temos de nos manter firmes nas ações do presente e prever desafios futuros a fim de minimizá-los. Mais do que isto: temos como objetivo a criação de uma geração realmente nova, com novas ideias e novas noções de cidadania e respeito ao bem coletivo que é a cidade.
Neste conceito, uma das áreas estratégicas para destravar este novo parâmetro de consciência é o Meio Ambiente. Com uma história mundial recente neste despertar coletivo para a necessidade da preservação e respeito, ainda é um desafio entronizar na sociedade conceitos fundamentais cujos desdobramento não estão somente na preservação do verde ou das características geográficas de cada região, mas sim, na garantia da preservação da própria vida humana e das espécies.
Ao presente, temos realizado um trabalho de conscientização pela proximidade do indivíduo com o meio. A construção de parques ambientais, como o Liberdade e o Ipiranga estabeleceram um novo formato na relação do homem com sua cidade e seu verde. Nossas crianças se desenvolvem em conformidade com estes conceitos fundamentais de respeito ao meio, sustentabilidade e respeito à vida. Jovens e adultos têm a chance de um novo despertar e entram em contato com o pensamento do futuro, cada mais presente em todos nós.
Estamos próximos de dar a nossa contribuição para este “presente”, através da inauguração do Parque da Cidade, que promete ser o maior parque urbano de Goiás, localizado na entrada principal da cidade. Será um novo referencial de vida saudável, de prática esportiva, de consciência ambiental e de lazer ao ar livre a todos.
No entanto, o trabalho em prol da preservação do meio ambiente é incessante, árduo e deve ser ininterrupto. Para o futuro, precisamos desenvolver ações no hoje, a fim de criar uma nova sociedade, arejada por ideias renovadas e inéditas e que, sobretudo, compreendam a necessidade de atuar de forma mais justa com o meio em que estamos ocupando.
Para isto, nesta semana, realizamos mais uma rodada da Semana do Meio Ambiente de Anápolis, a sexta edição de nossa gestão, cujo tema principal é o trato ambiental a partir do que geramos nos nossos descartes. A reciclagem é um tema recorrente, mas que precisa ser expandido e esta é nossa proposta: falar de redução, reutilização e reciclagem. Chegamos a este debate com propriedade por termos realizado um trabalho fundamental, que mereceu elogios do Ministério Público, no tratamento de resíduos e na lagoa de tratamento do Aterro Sanitário, ainda no ano de 2010.
Acreditamos que a atração do público ao debate e do estabelecimento de políticas exequíveis podemos despertar nas pessoas uma nova relação pessoal com o meio. E, especialmente, nas crianças temos não a oportunidade, mas a missão de criar desde já uma nova consciência e um novo modo de pensar a vida cotidiana. Sabemos da importância do trabalho e do quão árduo é, por ser – como frisamos – constante e ininterrupto em todas as suas abordagens – mas o principal já temos bem claro: o valor e a importância desta obra para a preservação da vida e da geração de qualidade de vida para todos nós.
(João Gomes, prefeito de Anápolis)
Quem substituirá o polemico JB?
Por Paulo Cesar de Oliveira
A anunciada renúncia do ministro Joaquim Barbosa, que deixa o Supremo no final deste mês, vai fazer emergir, novamente, a discussão sobre a forma de escolha dos componentes da Suprema Corte. Este debate anda por aí, latente, mas não feito à tona ainda, pelo menos não sem à força que o assunto tem, por seu caráter explosivo. O que se questiona é o fato de que a escolha de um ministro do STF é ato quase imperial do presidente da República e que, por outro lado, escolhido, sua excelência tem o cargo, ou o ônus, como gostam de dizer alguns, até quando lhe aprouver ou até que a morte ou a idade lhe tomar o assento no tribunal. Bem, vamos por parte. É quase uma verdade o fato de a escolha ser um ato de império. Mas não nos esqueçamos de que a indicação passa também pela aprovação do Congresso e que ele é que se submete ao presidente da República de plantão. Até aqui foram apenas cinco recusas, assim mesmo lá atrás, todas eles no governo de Floriano Peixoto, entre 1891 e 1894. Os demais foram todos homologados, tendo ou não qualidade. Então, que pelo menos o Congresso não venha falar em influência política nas indicações presidenciais. A questão não é pois de quem indica, mas de quem é o indicado. Outra coisa, seja qual for a fonte de indicação, sempre haverá, influência política. Ou alguém consegue ser indicado por um grupo, seja de parlamentares, ou juízes, sem fazer política entre seus pares? Outra polêmica é quanto a vitaliciedade do cargo. Os ministros devem ser vitalícios ou terem um mandato temporário? Há quem defenda as duas formas. Esta sim é uma discussão interessante, mas que exige profundidade do debate. Nada de açodamento na decisão que é complexa, especialmente quanto a duração dos mandatos, caso se opte por esta solução. Não se pode correr o risco de, mantida a reeleição, cada governo ter um STF seu. Lula e Dilma, por exemplo, vão chegar ao final de 12 anos, três mandatos, nomeando 13 ministros, dois a mais do que a composição do Supremo.
(Paulo Cesar de Oliveira, jornalista e diretor-geral das revistas Viver Brasil e Robb Report)
Deixe-me contar enquanto me lembro - George Sand, seu castelo, seus amigos e seus amores
Por Hélio Moreira
Já faz algum tempo (este vilão teima em passar muito rápido quando estamos na fase da vida em que contamos os dias), sei que Marília, como sempre, estava na minha companhia e estávamos em Paris e, como dizia Hemingway, tudo aqui é festa; caminhávamos sem um roteiro a ser seguido, imitávamos um “flaneur” (andar sem pressa e sem compromisso); paramos em um bar, daqueles localizados em boulevards, com mesas nas calçadas, pedimos um champanhe e passamos a discutir nosso roteiro do dia seguinte: visitar o castelo onde morara George Sand, na vila de Nohant, localizada na região central da França.
Dia seguinte levantamos cedo e nos dirigimos para a estação ferroviária (Gare de Austerllitz), onde tomamos o trem que seguia na direção de Chateauroux, e dali até Nohant (36 Km) fomos de taxi, pois os horários dos ônibus não nos permitiriam voltar no mesmo dia para Paris, como havíamos planejado.
Não vou entrar em detalhes sobre o Castelo de Nohan porque já foi motivo de um texto que publiquei aqui no jornal não faz muito tempo, gostaria de ater-me a uma das facetas da vida de George Sand: - seus amores, seus amigos e suas desilusões, tendo como pano de fundo aquele Castelo, palco de muitas destas aventuras do seu espírito.
Aurore Dupin ou George Sand, como ficou conhecida no mundo da literatura, foi uma das mais impressionantes e geniais figuras do romantismo do século XIX pela sua inteligência e, principalmente, pela sua personalidade voluntariosa, haja vista o pseudônimo que passou a usar, jamais se curvando aos costumes machistas da época, quer como mulher, quer como escritora, viveu e pensou com absoluta independência. Ela foi a voz da mulher em uma época em que a mulher estava calada, como refletiu um dos seus biógrafos, André Maurois (Lélia ou a vida de George Sand, Cia.Editora Nacional, 1956).
Casou-se com 18 anos de idade com o Barão Dudevant, com quem não foi feliz e por isto passou a buscar, fora do matrimônio, a realização amorosa que não encontrou sob o teto do Barão, envolvendo-se, dentre outros, com o poeta Alfred de Musset, o pintor Delacroix, que morou com ela no Castelo durante algum tempo, onde tinha, inclusive, um “atelier” de pintura a sua disposição e o compositor Frederic Chopin a quem parece que ela, realmente amou e viveram maritalmente um grande romance no Castelo por mais de sete anos, quando ele compôs a maioria das suas peças para piano, inclusive os famosos noturnos.
Esta fase da vida de Chopin, a partir de 1839 até meados de 1846, mereceria um texto a parte, pois foi nesta época, graças a assistência de Sand que ele, Chopin, conseguiu imprimir um ritmo regular no seu trabalho de compositor, obedecendo a necessidade de dormir mais cedo para melhor se recuperar da sua tuberculose e ela também, vivendo o encantamento do amor, escreveu seus melhores livros.
O Castelo possuía muitos quartos que eram utilizados para receber, constantemente, um grande número de convidados, seus amigos (escritores, musicistas e pintores) que ali permaneciam por longos períodos de tempo, dentre eles Litz, Balzac, Flaubert e Turgenev.
Para dar voz a estes relacionamentos, levo meus leitores a conhecer a sala de refeições do Castelo que fica ao lado da cozinha, facilitando, com isto a movimentação dos funcionários; ali encontramos, impondo-se na majestade do ambiente, uma enorme mesa retangular com dez cadeiras estofadas ao estilo Luiz XVI; em cada um dos espaldares está escrito os nomes dos convidados do dia, provavelmente muitos dos que estavam hospedados (alguns temporários e outros nem tanto), na cabeceira da mesa, como se identifica pelo nome no espaldar, comandando as discussões culturais, sentava-se a anfitriã.
Quase que no final do corredor do andar superior, encontramos o espaço reservado para Sand, aliás, chamando a atenção pela sua grande dimensão (cinco enormes cômodos), destacando-se entre eles, a sua biblioteca e a sala com a sua mesa para escrever, confesso que fiquei emocionado ao me dar conta de que naquele recinto ela escreveu a maioria dos seus romances, principalmente o clássico autobiográfico “Histoire de ma vie – História da minha vida” e, principalmente, uma infindável correspondência com seus amigos e seus amores, alem de um diário.
George Sand foi uma mulher que viveu intensamente seus amores e foi, provavelmente, a primeira mulher a abordar com coragem, problemas de relacionamentos sexuais nos seus escritos; sabemos, pela leitura de alguns de seus textos e, principalmente, pela sua correspondência, que ela se entregava inteiramente e com sinceridade aos seus amores e teve, também, muitos desenganos; seus amigos verdadeiros, como Flaubert, ao lado de dar-lhes apoio, também procuravam, amigavelmente, censurar algumas das suas atitudes.
Leiam comigo o resumo de uma carta que ela enviou a Gustave Flaubert (The Book of Love, Cathy N. Davidson, Penguim Books, 1992), provavelmente respondendo a algum questionamento que ele lhe fizera a respeito da sua vida amorosa; lembrar que por esta época ela estava com 67 anos de idade e estava envolvida com um jovem de nome Charles Marchal, dois anos mais novo que seu filho Maurice:
“ Nohant, 14/9, 1871
Você me pede para parar de amar? Você estaria querendo dizer que tenho cometido muitos erros na minha vida e que a humanidade é má, é detestável e que isto sempre será assim? Você repreende minha angustia como se fosse uma fraqueza pueril, um lamento de quem perdeu uma ilusão? Nunca deixarei de ser jovem, se ser jovem é sempre amar alguém.
Deixe-me supor que nós morremos e que nosso amor não nos acompanhe em outra vida, ausência e morte não são muito diferentes, nós nunca partimos, simplesmente perdemos os sinais da presença do outro“.
Os restos mortais de George Sand estão no cemitério do Castelo de Nohan.
(Hélio Moreira, membro da Academia Goiana de Letras, Academia Goiana de Medicina, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás)
Eleições faustosas, paixão comanda a razão
Por Josias Luiz Guimarães
O jargão popular leitor, chama ano político o ano de eleições; mas, o correto é ano eleitoral, porquanto, o termo “político” está presente, em todas as ações bem intencionadas de candidatos, gestores públicos do município, estado e país, em qualquer época, nas mal intencionadas, nunca, sempre ausente, pois, política constitui a arte de fazer a sociedade feliz. Consoante Spinoza, o homem (homo sapiens) é conduzido, muito mais, por sua paixão do que pela razão, por isso carece, quando gestor público, do controle da sociedade eleitora, mesmo, com toda sorte de instituições fiscalizadoras dos poderes constituídos: executivo, legislativo e judiciário. Embora, essa “multivigilância”: Ministério Público, Tribunais de Contas, Controladorias, Corregedorias, para que as eleições sejam limpas, administrações transparentes, a república funcione a contento, seja de fato, melhor forma de governo, carece ela, do controle da sociedade. Tudo porque, o corporativismo é imanente a qualquer agrupamento humano, de novo o instinto agindo, ainda mais, nas instituições públicas encarregadas de fiscalizar os demais poderes públicos, experiências, ao longo do tempo, demonstram bem, o seu hábito sorrateiro de contemporizar. Tivesse você leitor, o direito de sondar todos esses organismos encarregados, de tão espinhosa e nobre tarefa, ficaria boquiaberto, com a quantidade de processos lesivos ao patrimônio público engavetados, mesmo quando tramam contra mandato, bem como, outras maracutaias lesivas ao povo, costumam ficar em banho-maria a vida toda, aluindo da toca, só quando denunciado pela imprensa, maior aliada da sociedade contribuinte. Portanto, uma comunidade espectadora, ansiosa, realmente interessada e motivada à construção de seu próprio destino: “No ducor duco”: não sou conduzido, conduzo-o, isto, em relação ao estado – não sou servo do estado, o estado é que é meu servo - lema, para quem não sabe da Bandeira do Estado de São Paulo, tem que controlar os que são contratados pelo voto, participando, resolutamente, da vida política de seu bairro, lugar onde mora, cidade. Embora, um grão de areia na imensidão do Cosmo, sou, creio partícipe da história de minha terra, adversário ferrenho da orgia pública, tão comunal na atualidade, crítico da impunidade dominante, embora grão de areia na imensidão do Cosmo, procuro exercitar o papel do Aguilhão que, atirado pelo moscardo, alardeado por Sócrates, maior crítico da República daquele tempo, desencadeia, nas pessoas, estalo de consciência, consciência associada a um enlevado amor, a política como a arte de fazer a comunidade feliz, contagiada pelo senso comum. O instinto sempre fazendo a sua vez, no processo eleitoral, seja ele partidário como nas eleições que se avizinham, para renovar cargos nos estados e país, seja classista, como as eleições no Conselho Regional de Veterinária no dia 30, o sistema monolítico de chapa única trama contra a liberdade na sociedade livre, pois ela, concentra o poder nas mãos de poucos, isto aconteceu muito no mundo Árabe, constitui objeto de luta na Síria, embora, a primavera Árabe venha tentando mudar, subverter essa mania rançosa de apodrecer no poder, as expensas de gente sofrida como a nossa, a todo instante uma noticia de violência na TV, o próprio sistema de reeleição, ainda mais, sem desincompatibilização, constitui exemplo, induz a abuso de poder, com o estatuto da reeleição, o Congresso Nacional - embora tenha sido ele comprado, como no mensalão - traiu a vontade soberana do eleitorado brasileiro. No seio classista, isto acontece não, apenas, no Conselho de Veterinária, em quase todas sopram ventos adversos a competição, no processo de escolha dos dirigentes, mesmo o voto secreto vem sendo sofismado, caminhando para o faça de conta, ao passo que com disputa de chapas, lutas acirradas, tal não aconteceria. Isto é ruim leitor, pois os grupos, associações, clubes, cooperativas, quando organizam, com maestria, ardor cívico, duas ou mais chapas, visando a disputa, para escolher, cada vez melhor, seus líderes são o sustentáculo, mola propulsora do sistema republicano. Infelizmente, sou instado a lamentar, pois, essa inestimável disputa cívica, mesmo no seio estudantil, é hoje, tímida, sombra perdida nas brumas do tempo, falo de camarote, pois, participei, ativamente, da política estudantil, dessa forma, posso assegurar que a disputa, hoje acomodada, era naquele tempo acirrada, participativa, nas escolas, universidades. Eram carregadas de civismo, idealísticas, singelas nos gastos financeiros, mas sobejamente ricas, nos debates calorados, desse modo, contribuíam, em muito, para arrefecer, desencorajar, as campanhas partidárias nababescas. O Supremo: STF está, com a interpelação da OAB, com faca e queijo na mesa, mão, para sufocar, reduzir, sensivelmente, os desatinos dessas campanhas milionárias, embrião, nascedouro do processo corruptivo, no país, ora, exorcizando a oportunidade, de um lugar ao sol a milhões de patrícios, atualmente na penúria, demais, subtrai a oportunidade de tornar a educação, saúde, segurança nossa de cada dia, qualidades. Portanto, para que a sociedade, como salientamos em outros artigos, não continue, sem querer querendo, burra de carroça dos gestores contratados pelo voto, ela tem que inaugurar um novo paradigma consubstanciado a participação, com altivez, da vida política do lugar onde mora, comunidade, para tanto, precisa reivindicar, a começar no sistema educacional, pela introdução obrigatória da disciplina de educação política, em todas as escolas públicas e particulares, aulas teóricas e práticas, ensinando o corpo discente o “b a ba” do sistema democrático, a arte de votar e ser votado, de forma consciente. O processo de escolha de dirigentes clama por inovações, disputas pacíficas, mas dinâmicas, uma chapa competindo com outras, e, nunca monolítica, como essa do CRMV e, regra geral, rotineira na classe rural, calcadas no faz de conta. Oxalá, a Justiça Eleitoral, possa inovar com o seu novo presidente, inclusive, plagiando e concitando o Supremo a proibir os donativos de empresas jurídicas, já citados, instando os candidatos a usarem, com o respaldo gratuito da mídia, em dose elevada, as solas dos sapatos, a conversa direta com os eleitores ouvindo-os, levando suas idéias de candidatos consubstanciadas as reivindicações associadas ao progresso, bem estar da sociedade contribuinte. Que bom seria leitor, a razão comandar a paixão, na próxima eleição, para a alegria da Nação.
(Josias Luiz Guimarães, veterinário pela UFMG, pós-graduado em filosofia política pela PUC-Go, produtor rural. de tornar a educaortunidade de vo no pa merpelama parcimoniosa e altiva as campanhas partido)
Mulheres ocupam mais espaço no campo
Por Wandell Seixas
Se as mulheres ampliaram a sua participação no trabalho urbano, o campo também registra essa tendência. A mulher parideira e prole numerosa tende também a reduzir essa ímpeto. A mulher vai tomando consciência da importância de uma família menor para puder educar os filhos em melhores condições. Mulher que toma a conta de casa, dos filhos e fica sem perspectiva. Apesar da concessão de bolsa família pelo governo constituir em estímulo à uma maior prole, a mulher está tomando consciência de que esse procedimento tentador é uma enganação. Vai “pagar o pato” mais tarde ou mais cedo do que se pensa.
Mesmo a Revolução Industrial manteve socialmente a mulher do campo praticamente intocada. A mulher urbana começou a romper a casca do ovo e a se manifestar publicamente. Com o decorrer dos anos, ela pode chegar ao topo nas grandes cidades. O êxodo rural no mundo globalizado e uma maior falta de apoio governamental ao campo provocam carência de mão-de-obra nas propriedades rurais.
A agricultura familiar, como sempre, vai sendo tocada pelo patriarca, a matriarca, os filhos e agregados. Na agricultura de escala e na pecuária de leite, onde não havia espaço para a mulher, atualmente elas ocupam 30% do que antes era ocupado pelos homens. E nenhum empregador reclama. Muito pelo contrário. Para o aperfeiçoamento dessa mão-de-obra, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) tem dado a sua importante contribuição.
Uma colheitadeira com tecnologia de ponta, que custa acima de R$1 milhão, pode ser encontrada nas plantações de soja, milho ou algodão nas regiões Sul e Sudoeste de Goiás. E conduzida por uma jovem recém-treinada pelo Senar. A máquina moderna dispõe de um sistema de direção bastante leve e de fácil manejo. Maior conforto e inclusive ar refrigerado para superar o calor.
Em Itaberaí, por exemplo, os produtores de leite optaram pela mão-de-obra feminina na área de limpeza da sala de ordenha. Entendem esses produtores que a mulher cuida mais da higiene que os homens, que, no caso itaberino, passam a atuar noutras áreas. É importante notar que o leite com alto padrão de qualidade exige uma higienização completa na propriedade rural. E a presença da mulher contribui para esse avanço.
A Organização Internacional do Trabalho, organismo vinculado às Nações Unidas, em recente documento, informa que as taxas de participação femininas vêm crescendo a um ritmo bastante superior às masculinas. Com efeito, a participação feminina no mercado de trabalho, que girava em torno de 57,0% em 1992, aumentou para 62,9% em 2004 e para 64,8% em 2009. Por outro lado, a participação masculina declinou, ao passar de cerca de 90,0% em 1992 para 86,8% em 2004, mantendo-se praticamente estável em 2009 (86,7%).
Como resultado dessas tendências opostas, acrescenta os estudos, “diminuiu o diferencial de participação entre homens e mulheres (de 24,0 pontos percentuais em 2004 para 21,9 pontos percentuais em 2009) e a taxa de participação total apresentou um pequeno crescimento, ao passar de aproximadamente 73,0% em 1992 para 74,4% em 2004 e 75,3% em 2009. Em decorrência da maior incorporação ao mercado de trabalho, as mulheres passaram a representar 44,5% da PEA nacional em 2009, contra 40,0% em 1992”.
Nas áreas urbanas, a taxa se expandiu de 73,3% para 74,9% entre 2004 e 2009, sendo que nas áreas classificadas como rurais reduziu-se de 80,6% para 77,8% durante o mesmo período. Entre as grandes regiões, observou-se expansão da taxa nas regiões Sudeste – de 2,1 pontos percentuais e no Centro-Oeste 1,5. Por outro lado, observou-se ligeiro declínio no Norte (-1,1 pontos percentuais) e Nordeste (-0,2 pontos percentuais.) e estabilidade na Região Sul. Em 2009, a taxa de participação variava de um mínimo de 72,4% no Nordeste até 78,7% no Sul do País, conforme os levantamentos oficiais.
Na área do campo, com certeza, crescerá a participação feminina, seguindo tendências mundiais. Mesmo porque, a mão-de-obra masculina está também cada vez mais escassa por outros fatores.
(Wandell Seixas é jornalista da área agropecuária, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, bolsista pela Histradut em Israel e autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)
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